Eis algumas análises sobre o filme Paradise Now, feitas pelos alunos da turma de Comunicação e Cultura do primeiro semestre de 2011:
Letícia Tereza Barbosa da Silva
À primeira vista, um filme sobre a história de dois amigos que decidem cometer um atentado suicida em Tel Aviv poderia soar um pouco pertubador. E certamente o é. No entanto, “Paradise Now” vai muito além de um olhar simplista sobre a questão dos homens-bomba: ele traz para o espectador aspectos que muitas vezes ficam perdidos em uma perspectiva preconceituosa e até mesmo etnocêntrica. Ao apresentar, através detalhes muito sutis, o cotidiano de um povo oprimido, o contato e o choque entre diferentes realidades e culturas, a fé como força motriz de ações que desafiam a razão humana, o papel da mulher na estrutura social islâmica e os hábitos e costumes de um povo, o filme mostra que o embate entre palestinos e israelenses está inserido em um panorama complexo e multifacetado, no qual muitas vezes as vítimas são também os algozes.
Priscila Mana Vaz
O filme Paradise Now traz uma visão ligeiramente imparcial sobre a trajetória de vida de um homem bomba, seus conflitos e anseios. Há, nesse sentido, uma excelente oportunidade de se tentar estabelecer diálogos entre a cultura oriental (palestina) e a cultura na qual estamos inseridos. Oportunidade essa que legitima, ao meu ver, esse ato de suicídio "voluntário" cometido em algumas culturas. De maneira alguma o filme nos leva a acreditar que essa seja a maneira de resolver divergências culturais, contudo deixa para nós uma visão diferente da que é veiculada em noticiários. O filme é sem dúvida um excelente exemplo de que, apesar de haver algumas passagens onde fica clara a ideia do diretor contrária a atitude do suicídio, há com se ter um olhar de diálogo entre culturas, ao invés do lugar de censura de que todos estamos acostumados a observar as diferenças culturais.
Bruno Ronsini
Um filme inovador, pois trata de um assunto ja banalizado pela sociedade (o conflito entre judeus e muçulmanos), mas de uma maneira nunca antes vista. Através do ponto de vista dos homens bomba, os ditos mártires, mas que no final, não passam de pessoas comuns influenciadas por um ambiente de caos e a falta de perspectivas de uma vida melhor. A produção não toma partido. Retrata os suicidas com humanidade, mas introduz personagem que os fazem refletir, e também ao tele espectador, que após conhecer as personagens acha difícil demoniza-los por seus atos, assim como os próprios personagens encontram dificuldades em odiar o "opressor" quando os vêem de perto.
Laís Lima Yane
O filme aborda o impacto das diferenças culturais e a forma na qual lidamos com a mesma, havendo uma discussão política em torno de Israel, na qual não se passa apenas pela cultura pois há também questões políticas, religiosas e econômicas envolvidas, e também que algumas culturas possuem uma hegemonia maior culturalmente. É demonstrado que o homem-bomba também possui uma família, um coração e é um ser-humano como outro qualquer e ao mesmo tempo culpam Israel por serem como são e também por seus destinos. Fazendo relação com a visão de Levi-Strauss, que nesse contato com os outros que você pode relacionar sua cultura com as dos outros e dar à ela vida nova. Percebemos também a visão pacifista da personagem Suha, que representa a visão do diretor. Há como fazermos uma relação à ditadura, quando o personagem Said some, e os outros preocupam-se com o fato, ao pensar que entregará todos os envolvidos através de uma tortura sofrida, então eles precisariam fugir ou encontrá-lo o mais rápido possível. Podemos identificar as diferenças culturais quando surge a idéia de que a mulher ainda se encontra muito submissa e a religião é usada politicamente para convencê-los. Fazemos relação do título que seria o modificar a realidade que está aqui agora, o paraíso real com a frase dita pelo personagem: “Eu prefiro ter um paraíso na cabeça, do que viver nesse inferno.” E o final do filme explodindo em sua cabeça e não na cena ilustra todo um contexto. Concluímos então que é preciso não só respeitar a diferença mas entender como se dá o processo de uma outra cultura.
Louise Carvalho
Muitas vezes ouvimos na mídia notícias relacionadas a homens-bomba, mas poucas vezes paramos para pensar que possuem família e amigos como qualquer outra pessoa. Com o filme “Paradise Now”, o diretor Hany Abu-Assad tratou desse tema polêmico de uma forma que o público conseguiu ver diversos pontos de vista a respeito dos atos terroristas, ao mesmo tempo deixando de ser uma obra tendenciosa. Questões como: os motivos pelos quais homens concordam nessas ações; a reação da família e amigos quando recebem a notícia e a respeito da opinião pessoal dos próprios homens-bomba são abordados no filme, mostrando o lado humano e emotivo através dos personagens Said e Khaled. É uma obra que causará impacto e reflexão mesmo nas pessoas que nada sabem a respeito do assunto e, principalmente, naquelas com os preconceitos já formados.
André Vieira Libânio
Paradise Now vem apresentar o conflito Judeus x Palestino sobre uma nova ótica. Sem a vitimização característica das discussões sobre o assunto, o filme apresenta o outro lado dos homens-bomba palestinos vistos, quase sempre , como vilões da história. O filme permite desfazer a visão de “monstros” que se tem dos homens-bomba e pensar que tais ações “terroristas” são motivadas não somente por fanatismo religioso, mas por questões culturais, frutos de um Estado de violência, de guerra constante.
Durante o filme a questão da violência que é condenada pela personagem Suha e leva o telespectador a pensar se a violência é realmente a melhor maneira de se resolver o problema. Se terrorismo é a melhor maneira de se lutar contra o Estado de violência vigente. Os palestinos lutam por se sentirem oprimidos e subjugados, como diz Khaled: “só escolhemos a amargura quando alternativa é ainda mais amarga”. Enfim, o filme se destaca quando foge do estigma religioso a tratar desse conflito que já se arrasta por décadas.
Priscila Maria Costa
Os conflitos no mundo árabe acontecidos no campo político, econômico e cultural geralmente são representados pela arte como relato de uma sociedade que possui em seu seio a violência como um dos principais elementos para a transformação da realidade. No entanto, o filme Paradise now nos trás uma abordagem que está para além de um simples relato sobre a violência entre Israel e palestinos; nos trás a reflexão sobre as possibilidades de pensar através dos homens bombas que esperam resolver a luta pela disputa de territórios dando cabo de suas vidas, outros caminhos possíveis na guerra, sem precisar para isso, exercer a violência. O enredo do drama vivido pelos personagens Suha, Khaled e Said expressa as sutilizas de um movimento suicida em busca da conquista da liberdade e do paraíso num conflito entre negar e afirmar a própria existência neste mundo. Khaled e Said como protagonistas na representação dos conflitos árabe-israelense se colocam como heróis explodindo o próprio corpo a fim de fazer o mesmo com o povo inimigo. Argumentam que essa prática é a mais legítima e a única capaz de levar ao paraíso, já que consideram este mundo apenas como um campo de guerra e violência para se atingir um propósito que estar sempre por vir. A narrativa se intensifica quando a personagem Suha entre Khaled e Said questiona sobre o posicionamento do homem bomba na guerra, critica com força a prática suicida destes, e também por envolverem a morte de outras pessoas. Suha em seu argumento, propõe a busca por outras alternativas para o conflito entre os dois Estados. O que esta personagem afirma, é a necessidade de priorizar a vida, de afirmar o mundo, a potencialidade que o ser humano possui aqui e agora, exercendo uma força que estar para além da oposição vida e morte, bem e mal. Ao conseguir sensibilizar Khaled, o filme, principalmente através da personagem Suha, exprime que o paraíso se faz a todo instante, no cotidiano, no discurso, ao existir neste mundo. Exprime a importância de não depositar esperanças, desejos de felicidade e gozo em um mundo que não é este, mais potencializar a nossa capacidade criadora para viver o paraíso que está a se construir agora.
Daniel Hércules
O filme de Abu-Assad trata dos últimos momentos de vida de dois amigos de infância, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), após receberem de súbito uma notícia que aguardavam há anos: foram escolhidos, seriam mártires. Ao contar o cotidiano de um “homem-bomba” antes de o ser de fato, Abu-Assad humaniza o terrorista. No começo do filme, Said e Khaled são retratados como jovens despidos do estereótipo religioso. Logo na primeira cena com os protagonistas, Said é questionado por um cliente sobre a qualidade de seu trabalho, alegando que o pára-choque de seu carro encontra-se torto. Said e Khaled tentam resolver dialogando, mostrando que o que está inclinado na verdade é o chão, e não o pára-choque, porém o cliente mostra-se irredutível. Então, revoltado com a injustiça sofrida, Khaled, usando uma marreta, destrói o pára-choque: “- Pronto, agora está realmente torto”. O diretor Abu-Assad deixa claro algo que será explorado em diversos momentos do filme, e que é seu tema principal: a dificuldade em se estabelecer um diálogo, com ambas as partes mostrando-se irredutíveis, negando-se a ceder o mínimo para se chegar a um acordo. Revela também a insistência do uso da violência para resolver impasses, e como essa postura só piora o conflito. Khaled perde o emprego. Paradise Now retrata o conflito entre Israel e a Palestina, através da ótica da “resistência” palestina, por aqui conhecidos como “terroristas”. Sem se ater ao fundamentalismo religioso como única motivação para tal, retrata o “homem-bomba” em sua essência humana, ideais, conflitos: humaniza o desumano. Expõe diversos fatores, comumente ignorados pela mídia, que levam pessoas a cometerem atos extremistas, não justificando por esses fatores o próprio ato em si. Revela o quanto tais atos extremistas contribuem para o prolongamento do conflito e expõe a convicção desses homens de que essa é a única forma de lutar e fazer o mundo enxergar a sua causa.
Gabriel Corrêa e Tatyane Larrubia
"Paradise now" é um filme que aborda a questão do Homem Bomba. Mas apesar de esse ser um assunto frequente na mídia, o filme difere-se por ter um ponto de vista neutro. E essa neutralidade se dá principalmente por ter um roteiro não só do ponto de vista ocidentalista - no filme retratado pela personagem Suha - em que o homem bomba geralmente é visto como um individuo suicida, mas também mostra o ponto de vista do próprio homem bomba - retratado por Said e Khaled - . Não induzindo, então, o telespectador a pensar no homem bomba como um ser automático, mas sim como de fato um ser humano, com pensamentos, dúvidas e sentimentos. Depois de assisti-lo, é impossível não questionar os motivos que levam alguém a explodir-se por uma causa que acredita. O filme leva o espectador a refletir sobre a questão da pluratividade cultural e tenta esclarecer para quem o assiste sobre o problema do etnocentrismo. Nenhuma cultura é melhor ou pior que a outra. Apenas pensam de formas diferentes e se isso fosse então compreendido talvez não houvesse tantas guerras e conflitos por questões culturais.
Bernardo da Silva Lopes
O filme “Paradise now” evidencia o conflito entre Palestinos e Israelenses, mas, ao contrário da maioria dos filmes sobre esse tema, faz uma abordagem a partir da vida dos homens bomba. Sendo assim, quebra o preconceito reforçado pela mídia “ocidental” e comum na maior parte do mundo: os homens bomba são sempre os vilões. Pois demonstra que esse suicida, antes de qualquer coisa, é uma pessoa normal, possui família, amigos e sentimentos – amor e medo –, porém opta deixar isso tudo pra trás por acreditar em uma ideologia que prega o assassinato como parte da solução e a existência do paraíso após uma morte honrada. Esse pensamento facilmente persuade os homens palestinos pela falta de conhecimento desses; porque é legitimado por conceituados e respeitados líderes, apesar desses parecerem não acreditar no que dizem (Jamal); além disso, a maioria do povo palestino vive em péssimas condições, o que torna a opção de morrer como herói e honrar sua família mais atraente (Khaled e Said). Entretanto, o filme demonstra que embora essa idéia seja bastante difundida, não são todos que corroboram com ela, existem os que a questionam por acreditar que a justiça não pode ser verdadeira se obtida pelos mesmos meios da opressão, nesse caso se torna vingança (Suha). Com tudo isso, o filme caracteriza sua imparcialidade e apresenta a questão não de forma maniqueísta, mas de forma humana.
Rávellyn Roya Guimarães Borges
O filme retrata a realidade vivida pelos palestinos em terreno de ocupação israelense, a pressão sofrida por eles e a esperança depositada na crença de recompensa após a doação de sua própria vida em atentados suicidas com a intenção de demonstrar resistência às tentativas de ocupação. Tal prática tem sua iniciação na História durante a 2ª Guerra Mundial, em 1944, uma tentativa desesperada na qual o Japão lança contra a Marinha Americana pilotos kamikases, acendendo nesses jovens o desejo de morrer em nome da pátria através de um lema Banzai: "Antes a morte, que a rendição.” No contexto transmitido no filme, a história não é muito diferente: "Se não podemos lutar como iguais, morreremos como iguais". Embora os homens-bomba apresentem-se de modo cotidiano a zona de conflito no Oriente Médio, o filme foca o comportamento humano no que tange suas inseguranças, temores e anseios diante deste choque cultural pré-existente. Said e Khaled não são envolvidos em assuntos políticos, nem radicais religiosos, mas quando inquiridos comportam-se acertivamente em relação a tornarem-se adeptos e solidários a um ataque suicida em conjunto. Said nasceu em um campo de refugiados e aos dez anos de idade presenciou a execução do pai por ter se transformado em um colaborador do exército israelense, portanto, morrer em nome da pátria pode significar a remissão e purificação da honra de sua família. Após retroceder em certo momento na decisão de dar fim a sua vida, ocorre um monólogo que diz muito a respeito do que habita a mente de alguém que esteja disposto a perder a vida. Segundo Said, voltar para casa é o mesmo que se manter preso, pois é melhor morrer a viver sem dignidade, ou pior, viver sendo lembrado de suas fraquezas. "Israel convenceu o mundo e a eles mesmos de serem vítimas das circunstâncias, embora sejam opressores e ocupantes. Não me resta outra saída a não ser assumir meu posto de vítima, mesmo que isso me leve a transformar-me em um assassino". Neste ponto, Said mostra-se realmente decidido em relação a seu conflito interno e a postura de Suha é o contraponto que leva o expectador a refletir e definir sua posição em relação ao dado assunto. Suha impõe antes de tudo a posição da mulher contemporânea num contexto em que as mesmas não possuem voz nem vez e a partir desta postura traduz o que o mundo pensa ou deveria pensar em relação a essa tentativa violenta que transmite um pedido desesperado por justiça. "A partir do momento em que você mata, não há mais diferença entre vítima e opressor". Se tais tentativas terroristas fossem eficazes, as guerras solucionariam tudo, inclusive a fome, corrupção e desigualdade que tanto afligem comunidades humanas, não só na Palestina, como em todo o mundo
Essa semana revi o filme Paradise Now e ao mesmo tempo me veio uma música na cabeça: Desterro – F.U.R.T.O é muito fácil se obter um julgamento em relação a terroristas palestinos, homens bombas que parecem apenas ‘’ querer causar terror, matar pessoas inocentes e se auto explodirem’’, porém, ao ver o filme, fica bem mais claro que essa não é a questão. Etnocentrismo! Oprimir, delimitar, proibir, trancafiar e dizer: VOCÊ É INFERIOR, VOCÊ MERECE ISSO! POR QUÊ? PORQUE QUEREMOS, PORQUE SOMOS MAIS RICOS, OU SEM UM MOTIVO APARENTE. É o senso comum, como Marx dizia: a “ideologia’’ vem do dominante e não do dominado, eles têm um senso comum de pensamento, de classe. Israel apreende palestinos, feito animais, são postos atrás de grades e proibidos de ultrapassar pequenas fronteiras. Ser humano não foi feito pra viver assim, ainda mais sem ter cometido crime. Engaiolar passarinhos acaba por fazer morrer o canto dos mesmos, cortam-lhes não só as asas, cortam o direito de viver como passarinhos. Problemas ideológicos/econômicos fazem seres humanos aprisionarem seres humanos... Os oprimidos não têm outra escolha, não podem esperar que uma organização humana os ampare, pois está ainda em processo lento, não muito se pode fazer. É preciso chamar a atenção do mundo, das nações. E com o tempo que não combinava com o progresso, vinha como doença de dentro para fora dos hábitos, quando ele amou tão forte como uma bola de fogo, ela, o chão e a alegria de poder fazer mais cova em sua história” E essa amor como uma bola de fogo é talvez o que motive os Palestinos a cruzarem fronteiras e lutarem (da forma qual eles acham justa/digna/necessitada/precisa/um pedido de socorro, ou de paz) pelo amor aos seus pais, ao seu país, ao orgulho de ser Palestino, lutar pela liberdade. “Erra quem sonha com a paz, mas sem a guerra, se existe o céu, pois existe a terra, assim também é nessa vida real, não há o bem sem mal, nem amor sem que uma hora o ódio venha” É fazendo guerra que eles acham que acabaram com a guerra. Por amor, morre-se de amores. Por liberdade morre-se lutando, assim como por dignidade, orgulho, medo, coragem. “Quem não tem medo de morrer, domina a vida’’ Matar inocentes não é justo (essa é a visão do mundo para com o conflito) Matar, oprimir, menosprezar Palestinos, não é justo é preciso fazer algo. É então que deixo a pergunta no ar: Que algo é esse a ser feito? Não tomo como verdade, nem mesmo defendo os atos terroristas, mas é terror toda forma de violência, é terror toda discriminação, é terror não ter direitos, é terror não ser livre. Said passa todo o filme com o mesmo semblante, ele não sorri, ele não tem motivos para sorrir... Sua motivação é honrar a família, limpar a memória do pai. “Luta, pelo seu ideal Força, vai adiante até o final Voa, pra sua liberdade” – (Olha- Chicas) Pode-se dizer que Palestinos e Israelences tem a mesma cor, a cor da violência? Talvez! “O mundo migra e dá de cara com fronteiras As chaves são as mesmas... Um beijo na pátria amada Ao lado de uma bandeira queimada... Braço, é braço, braço de terra negada Braços pulando os muros do mundo Do futuro por emprego, braços de refugiados Apesar de tudo, por um instante Pousam num estado de aleluia...Desterro.”