19.12.11

Reavaliando a Cultura (2011.2)

Chegando ao fim de mais um semestre na turma de Comunicação e Cultura, realizamos novamente um exercício de reavaliação da cultura. Esta atividade teve o propósito de instigar uma reflexão "final" dos alunos sobre o processo de complexificação das questões culturais e suas tentativas de definição; após meses de estudo, pesquisas e debates, tentamos perceber quais foram as mudanças e ampliações em suas perspectivas sobre cultura, o que eles carregaram consigo para além da sala de aula.
Inicialmente os alunos puderam ler novamente aquilo que escreveram no primeiro dia de aula, quando postos diante das perguntas "O que é cultura?" e "Qual a importância da cultura?", para em seguida respondê-las novamente, completando ou complexificando-as, numa análise pessoal. Algumas destas reavaliações são destacadas abaixo, demonstrando a resposta inicial, seguida da resposta dada ao final do semestre.


"Cultura é tudo o que é produzido, absorvido e retransmitido, não só no âmbito artístico, pelo gênero humano.
Sua importância é vital. (Até porque sou músico)"

"Cultura nos cerca e nos envolve, em diferentes aspectos da vida social, as diferenças representam um conjunto por nós mantido, interpretado, modificado e compartilhado com os nossos pares, sejam eles parecidos ou não conosco. É um legado da humanidade para a humanidade, o que nos une e nos separa, o que nos faz amar e odiar, às vezes ao mesmo tempo. Produzindo uma relação dialética de construção coletiva e absorção individual e retransmissão para múltiplos receptores. Cheguei ao ponto onde não consigo mensurar a importância das culturas, por estar envolto nelas e por elas constantemente modificado e afetado, seria como responder qual é a minha importância pra mim mesmo."
Bernardo Fajoses Barbosa



"Cultura é o conjunto de características semelhantes dentro de uma sociedade diferenciada, adquirida através do conhecimento e afinidade.
Serve para identificar e caracterizar determinado grupo dentro da sociedade."

"Cultura é o conjunto de hábitos, crenças e valores de um determinado grupo ou sociedade. Todo povo tem cultura. A cultura é importante para diferenciar os indivíduos; grupos diferentes tem muito a aprender um com o outro."
Lia Ribeiro

"Cultura seria um aglomerado de características dos costumes, ideais, interesses artísticos e de uma forma geral, dos assuntos cotidianos de determinado povo de uma região qualquer.
Sua importância está em formar um conhecimento generalizado sobre uma população em específico com o objetivo de conhecer seus costumes."

"Cultura é tudo. Por ser algo "humanamente" artificial, isso é, criado pelo ser humano e variável, cultura é algo inventado, todos a possuem, embora nem todos reconheçam isso. Sua cultura é o meio que você vive, essa é a sua importância: seja de massa ou individual, seja uma cultura regional ou de pequenos grupos, cultura parece quase ser adquirida pelo ar de tão "elemental" que é, qualquer coisa que se faça é algum acréscimo na cultura de quem você é e de como você age com o mundo e outras culturas."
Ádac Barbosa


"Representa a identidade e a interligação de uma sociedade por meio de manifestações que abrangem diversos grupos, unos ou generalizadamente.


É a forma mais rica de apresentação dos costumes e hábitos de um povo, além de criar a unidade ou afastamento dos mesmos."


"Cultura é a forma mais rica de expressão de um povo, pois descreve seus hábitos, tradições, crença, história, está relacionada a tangenciar e direcionar o agir do povo que vive e se guia por ela. Sua importância simbólica é incomensurável já que é ela a identidade e as características desse povo, é necessário vivê-la para entendê-la."
Philipe Rabelo



"O conjunto de produções humanas, em variadas áreas, que refletem e remetem ao ser humano em si, seu momento histórico, sua visão de mundo e de sociedade. A produção de cultura e a sua perpetuação são processos naturais e inerentes a qualquer ser socialmente inserido que necessita divulgar e compartilhar as suas impressões sobre o que vive. Logo, a cultura é esse coletivo de registros de recortes provenientes de indivíduos diferentes sobre a sua “realidade”. É vital."

"A cultura pode ser entendida como uma rede de tradições, expressões e significações que o ser humano constrói para lidar com a sua vida e com a sua relação com os demais em sociedade. A sua importância é criar identidade e reconhecimento entre os membros de um grupo e ela é essencial justamente por ser o campo onde as relações de sentido são construídas."
Bruna Freire




Por fim, após estas reavaliações, os alunos se reuniram em grupos e destacaram as questões que para eles foram mais relevantes ou marcantes dentre as reflexões feitas no decorrer do semestre:

"O que mais nos marcou dos estudos de cultura nesse semestre foi a complexificação que o termo sofreu, a relativização de pre-noções que tínhamos estabelecidas antes. A noção de que cultura é um construto social, ela é diversa e rica. Abundante. Aprendemos que cultura é vital para a vida social pois é nela que as relações de sentido são estabelecidas."
Bruna Freire, Carolina Calderon, Abel Duarte, Hugo Ribas, Luiza Gomes

"O que nos marca de todo o exposto é a abertura da nossa concepção sobre diferentes definições de cultura, abrindo um leque sobre discussões tão pertinentes sobre o tema, nos fazendo posicionar em discussões acerca do assunto." 
Juliana Henrice, Paula Beatriz Dantas, Mariana Cardinot, Maria Lúcia Zamprogno

"Em Comunicação e Cultura aprendemos que cultura pode ser tudo, a existência de várias se deve a diversos fatores sócio-econômicos, culturais, de região, políticos, espaciais e de tempo e esse diversidade cultural é o que ajuda no desenvolvimento das sociedades, pois as trocas, as colaborações, etc, que as culturas fazem é o que as movimenta, não as deixando "morrer" ou atrasarem-se por inércia. O etnocentrismo causa uma cegueira. É preciso nem morrer por asfixia (fechar-se demais às outras cultura), nem incorporar demais as culturas dos outros (podendo perder-se na cultura do outro povo)."
Adriana Busquet, Leonardo Cancellier, Paola Grijó, Ádac Barbosa

5.12.11

"Qual é sua cultura?"

Grupo: Bruno Filho, Letícia Tavares, Lis Neves, Luiza Gomes, Mariana Cardinot

O principal objetivo do trabalho foi tentar compreender e encontrar pontos em comum sobre o que pessoas de diferentes lugares, faixa etárias, graus de escolaridade e profissões entendem por cultura e como identificam a sua. Foram cerca de 50 entrevistados apesar de algumas respostas inusitadas e outras terem se repetido em diferentes faixas etárias, é possível perceber que esta e os níveis de escolaridade são fatores que quase determinam a complexidade das respostas.


4.12.11

"Qual a importância da cultura para você?"


Grupo: Ana Gabriela, Caroline Dabela, Larissa Mendonça, Larissa Marins, Maria Lúcia, Natália Alvarenga

         Foi a partir dessa pergunta que fomos as ruas e entrevistamos crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos para saber qual a importância da cultura para cada um. Com o objetivo de se chegar a um senso comum sobre o assunto, obtivemos diversas respostas: muitos não sabiam o que responder, outros se confundiram com a resposta e responderam “o que é a cultura”  ou “qual a sua cultura”. Mas também conseguimos respostas que foram bem relevantes, que nos levavam a dois caminhos diferentes: a importância da cultura como identidade e a importância da cultura como integração.
        Através do que foi respondido, podemos relacionar com o que foi aprendido nesse semestre em aula, desde Lévi-Strauss a Marilena Chauí. Percebemos nas resposta conceitos como: etnocentrismo, optimum de diversidade, interculturalidade, entre outros. 
         Logo, vimos que a pergunta é difícil e por isso não existe uma resposta certa ou errada. Cada pessoa tem os seus princípios, seus sonhos, suas crenças... sua cultura. E assim a importância que a cultura tem para cada um difere a partir de cada pensamento e maneira de vida.


"O que você entende por Cultura?"


Grupo: Hugo da Silva Ribas, Juliana Borré Henrice, Leonardo Cancellier, Paula Beatriz Dantas

Através de uma pesquisa de campo, acerca da enquete “o que você entende por cultura?” foi possível encontrar diferentes pontos de vista sobre o que as pessoas entendem por cultura. As respostas foram agrupadas de acordo com a faixa etária somando cinco grupos: crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Após, foi somado o material teórico adquirido nas aulas de “comunicação e cultura” ministrada pelo professor Marildo no curso de Estudos de Mídia, perfazendo um total de cinco grandes autores, dentre eles, John B. Thompson e Claude Lévi-Strauss, com o material coletado na pesquisa de campo. Como conclusão, pode-se notar que a noção de cultura muda mais entre grupos de faixas etárias diferentes do que dentro da mesma faixa etária, além de que a maioria dos entrevistados tratou da cultura com um fator predominantemente artístico e cultural, referindo-se a tradição de um povo, o que nos fez notar que apesar de serem respostas não muito exploradas mentalmente, as concepções de cultura apresentadas foram satisfatórias, visto que os entrevistados não só apresentam uma concepção válida para cultura, como também sabem relacioná-la com seu cotidiano de forma clara e precisa.

7.11.11

John B. Thompson - mídia e poder simbólico

Nascido em Miniapolis (Estados Unidos), o professor John B. Thompson está radicado na Inglaterra desde 1970. Aos 51 anos, leciona Sociologia na Universidade de Cambridge e tenta desvendar os meandros das relações da mídia com o poder e as instituições. Ganhou o prêmio Amalfi, um dos mais importantes na área de Ciências Sociais, na Europa. No Brasil, tem três livros publicados – “Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa”, “A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia” e “O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia”, pela editora Vozes. Este último ele lançou na PUCRS, durante o Seminário Internacional de Comunicação “Cultura, poder e tolerância em um mundo complexo”, em setembro. Em entrevista ao Extra Classe, Thompson esmiuça sua teoria do escândalo político e se mostra curioso diante da “especificidade” da política brasileira.


Fonte e entrevista na íntrega em: http://www.sinpro-rs.org.br/extra/out02/entrevista.asp

23.10.11

Análises do filme "Paradise Now" (2011.2)

Novamente, alunos deste semestre da disciplina "Comunicação e Cultura" analisaram o filme "Paradise Now", mencionado no post anterior, com várias observações pertinentes. Vejamos algumas delas:


Adriana Busquet de Sousa
O filme “Paradise Now” apresenta o conflito entre Palestinos x Israelenses sobre um novo ponto de vista, o dos homens-bomba. O filme mostra conflitos sociais (que envolvem questões culturais, políticas e econômicas) causados pelo impacto das diferenças culturais entre a cultura oriental e a ocidental. Percebemos no filme o etnocentrismo israelense, que se põe como ‘cultura superior’ e se impõe aos palestinos, os obrigando a declarar inferioridade ou seriam dizimados. Bloqueiam saídas de Nablus, tira o direito de ir e vir. Percebemos também lado “humano” ainda não visto dos homens-bomba. Sua família, seus conflitos familiares, sua forte crença religiosa. Essas grandes culturas conflitantes têm muitas diferenças: a concepção de morte, o materialismo, as vestimentas, o papel social de cada integrante da família, as formas de lazer etc. Mas também existem semelhanças que os conectam. Por exemplo: a questão da água poluída nas duas regiões, o cuidado com as crianças, a crença religiosa etc.

Ana Cecília Peron
Evolucionismo social, etnocentrismo e superioridade racial são alguns dos pontos que o filme "Paradise Now", assim como a disciplina de Comunicaçao e Cultura tentam desconstruir.  Acompanhando o momento quando dois amigos de infância são recrutados para um atentado, o filme retrata o ambiente histórico-social por trás da operação. Os personagens principais personificam diferentes visões em um mesmo espaço, como a vontade de afirmação da própria cultura, o desejo de ser distinto e também o desejo de mudança. Dessa forma, é trabalhada, assim como na disciplina, a noção da pluralidade de culturas e diferentes "verdades". O filme tenta, a todo instante quebrar a imagem violenta, impulsiva e até mesmo um pouco irracional criada em relação a diferentes culturas, no caso com o uso de "homens bombas". A isto podemos relacionar a ideia discutida por Lévi-Strauss, de que o progresso do homem em nada se parece a uma escada evolutiva, dando ênfase ao processo cultural e à situação, descartando a ideia de que as culturas evoluem até convergir a um mesmo ponto. 

Ana Clara Siqueira Santos
O filme leva o espectador a analisar as questões dos homens bombas de uma maneira imparcial, sem um julgamento etnocêntrico que muitas vezes, mesmo inconscientemente, fazemos. Essa visão diferenciada deve-se a preocupação do diretor em mostrar os motivos de cada um dos personagens que influenciam na decisão de se tornar um homem bomba; esses motivos podem ser familiares, como no caso de Said, religiosos e muitos outros que já estão presentes há muito tempo na sociedade palestina. A personagem Suha traz o choque cultural, com uma visão diferente, buscando uma revolução através de outros caminhos, mostrando que há uma outra possibilidade de mudança.

Bruno Ferreira de Souza Filho
O diretor do filme busca romper os estereótipos das identidades culturais da palestina promovida pelas representações da mídia, por isso a importância do conteúdo baseado nos conceitos de representação e identidade cultural é maior do que com a idealização de uma história e a utilização de efeitos especiais. Uma personagem que merece destaque é a Suha por ter feito várias viagens e ter entrado em contado com diversas culturas, posicionando-se de forma não etnocêntrica, mas sim buscando entender a cultura do outro em seu próprio termo. Além disso, a personagem analisa uma característica da própria cultura a partir das visões e contatos com outras culturas que teve. Uma passagem importante e pertinente a isso é quando ela faz o personagem Said se questionar se a questão do suicídio do homem bomba é realmente necessária. Outro conceito levantado por Lévi-Strauss notado no filme é justamente a questão das identidades culturais se encontrarem em constante rearranjo, organizando-se muitas vezes com elementos contraditórios. Por isso a indecisão de Said, sobre a questão do homem bomba, é tão comum. De maneira clara o filme evidencia o contraste da pobreza de Nablus com a riqueza de Tel Aviv, além é claro da estrutura de cada cultura. Resumindo a proposta do filme, o diretor declara em uma entrevista: "os políticos querem ver [o conflito árabe-israelense] como sendo preto-e-branco, bem e mal, mas a arte [o filme] quer ver como sendo algo humano".

Carolina Calderon
      No filme “Paradise Now” de 2005, o diretor Hany Abu-Assad desconstrói a imagem pejorativa que temos do Oriente Médio, particularmente da Palestina, mostrando cenas cotidianas de famílias que são de alguma forma influenciadas pelas guerras de ocupação. Dessa forma, os homens bombas, personagens tão comumente vilanizados pela mídia ocidental, são analisados por uma perspectiva mais justa, que considera a realidade dos indivíduos e não se restringe a um fanatismo religioso. Vemos no filme, então, um forte exemplo de relativismo cultural, onde diferentes culturas cultivam diferentes conceitos de valores, considerando que nenhuma cultura é superior a outra. A personagem Suha pode nos remeter ao conceito de “optimum de diversidade” de Levi-Strauss, ela que viveu tanto na França quanto na Palestina, cultiva um ponto de vista que não é nem preconceituoso nem parcial e consegue, ao argumentar seu raciocínio, fazer um dos personagens desistirem do ataque suicida.

Juliana Borré Henrice
No universo dos conceitos oras se peca pela falta oras pelo excesso, contudo dentro de um paradigma de entendimento de uma relação apropriada entre o filme “Paradise Now” de direção de Hany Abu-Assad que estreou nos cinemas em 2005 e, as aulas ministradas pelo professor Marildo no curso de Estudos de Mídia,  torna-se uma tarefa árdua, visto que abarca diversos conceitos que deveriam ser previamente conhecidos como o etnocentrismo, nesta relação proporcionado por uma visão limitada de Khaled e Said acerca da pluralidade de outras culturas; nacionalidades, através do entendimento de mundo a partir de suas centralizações; identidades, no espírito de verdade unívoca que glorifica as razões que levam um mártires a preservar seus preceitos, entre outros. Israel, mais precisamente Tel Aviv torna-se neste embate uma cidade passível de extermínio da história, sendo bombardeada por personalidades conhecidas como “homens bombas” que se engrandecem ao estabelecer suas histórias e, que ao concretizarem seus preceitos chegam mais perto daqueles dogmas que os glorificam como seres que na pós-morte será possuidores de “virgens e que viverão no luxo da vida eterna”, pois morreram lutando ou se espedaçando, no sentido literal da palavra, por um idealismo utópico não desmistificado. Desse modo, histórias (quem sabe “lendas”) e conceitos como estes, fazem efervescer dúvidas que nesta conturbada concepção pós- moderna (definição sórdida para algo que ainda esta em avanço e sabe-se lá quando este avanço terá um marco definitivo) voltam a serem apontados como: Cultura - qual seria sua definição correta (se é que ela possa existir)? Até que ponto o espírito de nacionalidade pode influenciar na formação pessoal do individuo? Algemas de identidades até quando serão lacradas nos pulsos dos homens? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas, para concretizarem na ideia que achei mais sinfonicamente harmônica possível: somos feitos de “Comunidades Imaginadas”, nas quais “as diferenças entre as nações residem nas formas diferentes pelas quais elas são imaginadas” e que “as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação”, como diz Benedict Anderson e Stuart Hall respectivamente; logo, será que se torna possível a conclusão de que somos frutos de uma representação de comunidades imaginadas ? Ou seres manipulados por imposições socialmente estabelecidas e que por elas, dependendo do grau de influencia que nos exercem, matamos ou morremos?


Larissa de Fátima Mendonça
Quando ouvimos falar em terrorismo e homens-bomba, logo nos vem à cabeça morte, guerra, sofrimento e não podemos esquecer também o preconceito com o que está tão longe e é tão desconhecido de nós. Através do filme “Paradise Now” que retrata a vida de dois homens que vivem sob a conflituosa relação entre Israel e Palestina que são convocados para servirem com homens-bomba num atentado suicida em Tel Aviv, refletimos que atrás de tudo que aparece na mídia e tudo que achamos que sabemos sobre o assunto, existem pessoas que possuem famílias e que buscam, num ato que para a maioria da sociedade é considerado como “monstruoso” e com o intuito de apenas matar pessoas inocentes, o caminho para o “paraíso” e principalmente trazer honra para uma comunidade devastada. Assim, entende-se que é fundamental buscar entender a cultura do outro para que aí sim conclusões possam ser tiradas, até porque nenhuma cultura é superior a outra... elas são apenas diferentes.




Leonardo Mesquita de Lorenzi Cancellier
            O filme Paradise Now difere de outros filmes do gênero ao mostrar não apenas os conflitos entre os israelenses e os palestinos, homens-bombas e temas semelhantes, mas que essas pessoas têm uma vida relativamente normal. O estigma de homem-bomba fica claro em um momento no filme que Said e Khaled, para passarem despercebidos em Israel, precisam tirar a barba, cortar o cabelo e mudar as roupas. Quando eles aparecem de terno e gravata em Nablus, as pessoas ficam perguntando: “Vão a algum casamento?” ou fazem piadinhas, como “Viraram colonos?” (nesse momento, nota-se um tom etnocêntrico nas falas). O filme também nos faz questionar como nos é mostrado aqui no ocidente os atentados naquela região: os palestinos, antes de serem terroristas, sofrem também o terror de Israel. Para Said e Khaled, os seus corpos são as únicas armas que eles possuem e se tornar um homem-bomba é uma maneira de chamar a atenção do ocidente para a região (e mesmo que não haja resultado, pelo menos chamaram a atenção). De acordo com Levi-Strauss, encaramos as diferenças de maneira pejorativa, já que tendemos a encarar pensamentos e ações diferentes do que estamos acostumados como inferiores.
            O choque entre culturas é feito através de Suha, filha de um mártir da palestina, que nasceu na França, cresceu no Marrocos e voltou para Nablus. Após um diálogo tenso entre ela e Khaled, ele começa a pensar sobre as suas escolhas e desiste de se matar. Said, ao ter um diálogo igualmente tenso com Suha, ao contrário, vê que a única maneira de ter a atenção do ocidente é se suicidando. Ele diz que Israel está ocupando um papel de opressor e vítima, não deixando outra escolha aos palestinos, além de se tornarem vítimas e assassinos.
            Outro momento em que o choque entre culturas fica claro é no momento em que Said vai visitar Suha de madrugada e ela pergunta se ele já foi ao cinema. Ele responde que só foi uma vez e para botar fogo nele. Ao que ela pergunta por quê o cinema e o que ele fez, Said rebate dizendo: “E por quê nós?”. Ela também pergunta qual os gêneros de filme, por que ele coloca muito açúcar no chá e, em um momento, ela diz que a vida dele é como se fosse um filme minimalista japonês e Said faz uma cara de: “Oi? O que é isso?”.

Lia Ribeiro
O filme “Paradise Now” aborda a questão dos conflitos entre Israel e Palestina através da visão dos personagens Khaled e Said - ambos muçulmanos e residentes em Nablus, uma pequena cidade Palestina. A temática do filme se desenrola em torno de um possível atentado terrorista provocado pelos personagens à cidade de Tel-Aviv, em Israel. Tel-Aviv e Nablus são duas cidades oriundas de um mesmo território que, por possuir diferenças culturais e ideológicas significativas, construídas principalmente através das instituições religiosas muçulmana e judaica, foi dividido em dois estados que estão constantemente em guerra por reivindicarem os territórios em disputa.
Neste caso, quando uma cultura julga como correto o seu posicionamento no conflito, automaticamente julga como errado o posicionamento do outro, desrespeitando a diversidade cultural vista por Lévi-Strauss como fundamental e enriquecedora.

Natália Alvarenga
Ao analisarmos o filme "Paradise Now" conseguimos conhecer melhor as duas partes da região da Palestina, àquela sob domínio judaico e a outra sob domínio muçulmano. Elas são opostas uma da outra; a parte judaica tem um ambiente com um bom desenvolvimento tecnológico e urbanizado. E na parte de domínio muçulmano, podemos ver casas com estruturas mais simples, ruas sem pavimentação, com um saneamento básico precário. E no meio dessas diferenças, podemos perceber aspectos culturais palestinos que não são explorados pela mídia. No caso, o filme põe em foco o homem-bomba. Na nossa visão cultural, sabemos que o homem-bomba tem como objetivo abrir mão da própria vida para matar o maior número de inimigos e em nosso senso comum eles são pessoas ameaçadoras e não conseguimos compreender todos os motivos que os levam a cometer tal ato. Com esse filme, temos a chance de ver outra visão dos fatos. O lado deles, homens bombas, que são tão humanos quantos nós e que ao serem designados para cumprir tal papel, precisam fazer escolhas e deixar suas famílias em prol de uma comunidade. O relativismo cultural, conceito desenvolvido por Lévi-Strauss, se mostra presente no filme, nas diferenças entre as cidades, mas também em outros detalhes, como costumes e crenças dos personagens. Exemplificando, podemos pegar a personagem Suha-Uma jovem que foi criada e educada fora do país e filha de um mártir da guerra. Com isso, ela possui um comportamento mais flexível, conseguindo ponderar certos costumes palestinos (Não faz o uso do véu e não possui uma atitude submissa aos homens). Ela representa a diversidade cultural e dessa maneira consegue relativizar a situação levando a Said e Khaled outra visão de mundo. O filme nos mostra duas culturas distintas, que não se toleram e se auto afirmam. Esse cenário pode ser interpretado como uma crítica ao etnocentrismo, também um conceito do Lévi-Strauss. Nesse caso, conseguimos entender a importância da diversidade cultural, nos mostrando que quanto mais culturas convivem em um mesmo espaço e tempo, maiores são as possibilidades de desenvolvimento humano e maiores chances para uma cultura se expandir. Para o antropólogo as transformações culturais são frutos desse intercâmbio cultural, pois ele permite a incorporação e o aprimoramento de características em sua cultura que só passam a serem percebidas quando estão em contato com outras distintas. Em “Paradise Now” esse contato de Suha com Khaled ilustra perfeitamente como o processo de transformação cultural ocorre e as consequências desse contato. Já que após várias conversas entre os dois personagens, Khaled faz uma reflexão sobre as suas escolhas e desiste da missão de ser um homem-bomba. No entanto, Said, mesmo com a interferência de Suha, faz a escolha de seguir em frente em busca do seu paraíso. No minuto final do filme, vemos Said acionando a bomba e ficamos na expectativa de uma grande explosão, porém, o diretor nos surpreende novamente com um final silencioso. Colocando um fim a nossa visão sensacionalista sobre vida e morte desses homens bombas.






18.9.11

| Paradise Now



Em Paradise Now, o diretor e roteirista Hany Abu-Assad passa a mostrar algumas razões que levam pessoas simples e comuns, sem nenhuma espécie de radicalismo político ou religioso e com uma forte ligação familiar, a tomar formas tão drásticas de combate. A partir desta tônica, podemos pensar nos seguintes aspectos: Estariam os homens bombas realmente convictos da necessidade de se explodirem, no intuito de destruir alvos considerados inimigos? Seria a violência a melhor forma de lutar contra um sistema opressor, mesmo sendo ele exageradamente violento, como comprovadamente foi Israel em relação à Palestina? Como convivemos com a diferença? São inúmeras as questões levantadas em virtude desse longo e discutido conflito. Pensemos e analisemos algumas dessas questões levantadas pelo filme.




1.9.11

Nestór García Canclini


 Néstor García Canclini é argentino, antropólogo e estudou também letras. Doutorou-se em 1975 pela Universidad Nacional de La Plata e, três anos depois, pela Universidade de París. Foi docente da Universidad de La Plata (1966-1975) e na Universidad de Buenos Aires (1974-1975). Desde 1990, é professor e pesquisador investigador da Universidad Nacional Autónoma de México, Unidade Iztapalapa, onde dirige o Programa de Estudios sobre Cultura. Foi professor das universidades de Stanford, Austin, Barcelona, Buenos Aires e da USP. Já publicou cerca de 20 livros sobre estudos culturais, globalização e imaginação urbana. É um dos principais pensadores ligados aos Estudos Culturais Latino-americanos. No Brasil encontramos algumas traduções de sua obra, tais como o fundamental "Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da Modernidade" (Ed. Martins Fontes); "Consumidores e cidadãos" (Ed. UFRJ); "Culturas da Ibero-américa" (Ed. Moderna): "Diferentes, desiguais e desconectados" (Ed. UFRJ).

Para aqueles que querem conhecer um pouco melhor o pensamento de García Canclini, abaixo colocamos um artigo seu e uma entrevista feita com ele.

"En algunos casos, sobre todo en América Latina, al estudiarse conjuntamente la interacción de estos campos disciplinarios con su contexto se viene produciendo una renovación de las humanidades y las ciencias sociales. En Estados Unidos, los cultural studies han modificado significativamente el análisis de los discursos, dentro del territorio humanístico". *Para continuar lendo o artigo "El malestar en los Estudios Culturales", clique aqui.

"Hibridação designa um conjunto de processos de intercâmbios e mesclas de culturas, ou entre formas culturais. Pode incluir a mestiçagem -racila ou étnica-, o sincretismo religioso e outras formas de fusão de culturas, como a fusão musical. Historicamente, sempre ocorreu hibridação, na medeida em que há contato entre culturas e uma toma emprestado elementos das outras. No mundo contemporâneo, o incremento de viagens, de relações entre as culturas e as indústrias audiovisuais, as migrações e outros processos fomentam o maior acesso de certas culturas aos repertórios de outras. Em muitos casos essa não é só de enriquecimento, ou de apropriação pacífica, mas conflitiva." Para continuar lendo a entrevista, clique aqui.

30.8.11

Revisitando Lévi-Strauss


| Lévi-Strauss, considerado o pai da antropologia estrutural, faleceu em outubro de 2009, próximo de completar seus 101 anos e até então continuou na ativa refletindo sobre o mundo em que vivemos. Em "Tristes Trópicos", uma de suas principais publicações, ele assim se define:
"É assim que me identifico, viajante, arqueólogo do espaço, procurando em vão reconstituir o exotismo com o auxílio de fragmentos e de destroços."

|Abaixo reproduzo parte da entrevista que ele deu para a Folha de São Paulo, em 1993 (leia na íntegra). Essa entrevista foi posteriormente publicada no livro "Artes do Conhecimento", que compila, juntamente com "Conhecimento das Artes", as consideradas 100 melhores entrevistas publicadas pelo caderno cultural Mais!, também da Folha.

FOLHA DE SÃO PAULO - O relativismo antropológico, do qual o senhor é um fundador...
LÉVI-STRAUSS - De jeito nenhum. Não sou o fundador do relativismo antropológico. Ele existe desde Montaigne [1533-92]

FOLHA - De qualquer jeito, o relativismo antropológico não teria reproduzido nas sociedades ocidentais contemporâneas um pensamento análogo, uma estrutura equivalente hoje à ideologia bipartida dos ameríndios, já que propõe a co-habitação com culturas exteriores?
LÉVI-STRAUSS - Alguns podem fazê-lo e pensar dessa forma talvez. Mas eu não iria tão longe. Para mim o relativismo cultural não tem conteúdo positivo. É simplesmente a constatação de que não dispomos nenhum critério absoluto para julgar uma cultura em relação à outra. Eu paro diante dessa incapacidade. Não tento substituí-la por algo positivo, como seria a doutrina da Unesco, por exemplo.

FOLHA - O senhor sempre tomou o partido da ciência, mas, na releitura de Montaigne que faz em a História do Lince mostra também suas distâncias em relação a uma fé no conhecimento. O senhor se tornou mais cético em relação à ciência?
LÉVI-STRAUSS - A lição que tirei de Montaigne é que estamos condenados a viver e pensar simultaneamente em vários níveis e que esses níveis não incomensuráveis. Há saltos existenciais para passar de um a outro. O último nível é um ceticismo integral. Mas não se pode viver com ceticismo integral. Seria preciso se suicidar ou se refugiar nas montanhas. Somos obrigados a viver ao mesmo tempo em outros níveis em que esse ceticismo está moderado ou totalmente esquecido. Para fazer ciência, é preciso fazer como se o mundo exterior tivesse uma realidade e como se a razão humana fosse capaz de compreendê-lo. Mas é "como se".

22.8.11

O Velho Tema do eu e do outro


Nos estudos sobre cultura, é fundamental compreender e relativizar as diferenças entre indivíduos ou grupos. Não apenas para evitar tendências etnocêntricas, mas para reconhecer a forma através da qual os indíviduos constroem sentido socialmente, mesmo com base na diferença. Este processo interpessoal constitui aquilo que conhecemos como alteridade: a percepção de si mesmo e do outro, que é dada a partir da relação do "eu" com outros indivíduos.
Abordando este tema, o aluno da disciplina de Comunicação e Cultura, Bernardo Fajoses, nos recomendou um pequeno texto de Arthur da Távola capaz de exemplificar a forma pela qual estas relações entre o "eu" e o "outro" são construídas.


O VELHO TEMA DO EU E DO OUTRO

Veja se dá para entender: a gente, para a gente mesmo, é a gente. Raramente consegue ser o outro. A gente, para o outro, não é a gente, é o outro. Deve estar confuso. Tento de novo. Cada um de nós vive uma ambigüidade fundamental: ser a gente e ao mesmo tempo, ser o outro. Pra gente, a gente é a gente. Para o outro, a gente é o outro.

Temos, portanto, dois estados: ser o eu de cada um de nós e ser o outro. Na vida de relação, pois temos que saber ser o ‘eu individual’ e ao mesmo tempo, aceitar funcionar em estado de alteridade (outro vem de ‘alter’), ou seja, de ‘outro’.

O outro, raramente nos considera como a gente (como pessoa singular, peculiar, própria, única, desigual). Em geral, ele nos considera como o ‘outro’. Daí surgem os conflitos. Não apenas o outro em geral não nos considera como ‘a gente’. Também a gente não sabe aceitar, ou raramente aceita, ser tratado como ‘outro’. A gente quer ser tratado como a gente sabe que é, e não como o outro nos considera.

A gente sempre tem esperança que o outro descubra o que a gente é. Mas isso é muito difícil, porque o outro nos vê como ‘outro’ ou como qualquer projeção dele, jamais nos vê como a gente se vê ou quer ser visto ou gostaria de ser visto.

Uma relação de duas pessoas dá-se portanto, em quatro etapas: i) para Joaquim, Maria é o outro; ii) para Joaquim, Joaquim é Joaquim; iii) para Maria, Joaquim é o outro; iv) para Maria, Maria é Maria.

Mas Maria quer que Joaquim não a veja como ‘o outro’ e sim como Maria. E Joaquim não quer ser visto como ‘o outro’, ele quer ser visto como Joaquim. Mas nem Maria o vê como Joaquim (e sim como ‘o outro’), nem Joaquim a vê como Maria (e sim como ‘o outro’ na pessoa dela).

É essa a vontade de que nos vejam como individualidade que somos, o que nos leva a exigir talvez demais daqueles que se relacionam conosco. Eles talvez não estejam preparados (raramente estão) para nos ver como ‘eus’, como unidades próprias, como somos ou como queremos ser.

Exigir dos demais que nos vejam em nossa individualidade é um fato de pouca sabedoria. Raramente eles o conseguem, porque se somos ‘eu’ para nós mesmos, somos outro para eles. Em estado de ‘eudade’ (de eu), somos uma pessoa. Em estado de alteridade, somos outra pessoa.

Conseguir, sem exigir ou cobrar, porém, que o outro não nos veja como ‘o outro’ que somos para ele, mas como o ‘eu’ que somos para a gente, é ato de sabedoria. Significa saber ser nítido, saber colocar-se como pessoa e como individualidade, saber ocupar o próprio espaço sem qualquer invasão do espaço dos demais ou sem qualquer limitação do que eles são e nos agregamos, por inveja ou por admiração (coisas muito parecidas).

Para tal, é mister que saibamos ver o outro não apenas como o ‘outro’, mas como o ‘eu dele’ para ele. Mais claro: significa ver o outro como ele é, na condição de ‘eu’ ou seja, de indivíduo próprio, peculiar, semelhante sim, mas desigual e não na condição de ‘outro’, que é como ele chega até nós.

É no centro dessa relação que está a essência do problema da comunicação e da comunhão (que vem a ser a mesma coisa).

Eu devo ser ‘eu’ para mim e para o outro. O outro deve ser o ‘eu-dele’ para mim. Eu devo aceitar ser ‘o outro’ para o outro. Mas devo desejar e conseguir ser ‘eu’ para ele. Eu, em estado de ‘eu’, devo aceitá-lo como outro. Eu, em estado de ‘outro’, devo aceitá-lo como o eu dele. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘eu’. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘ele’. Ele é ‘eu’ mas também é ele. Por isso somos, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Por isso somos irmãos. Por isso a humanidade é uma só. Por isso a igualdade humana é uma verdade, na diferença individual.

E, para terminar, um outro alcance, paralelo ao principal, mas verdadeiro nas relações humanas: o outro nunca sabe direito o que ele é e representa para a gente. E a vida nos vai ensinando a ser cada vez mais sozinhos, pelo acúmulo de não correspondência daqueles que sempre nos significam algo, mas nunca o souberam ou perceberam na exata medida. Ou então, preocupados em excesso com os próprios problemas nunca atenderam ao potencial de afeto que por eles ou para eles havia em nós e foi desgastando em uso ou dispersão, já que não o souberam receber.

Às vezes esse ‘outro’ é mesmo o outro. Aí é a gente que fica com o próprio gesto de amor solto no ar à espera de aceitação, entendimento e correspondência. Em ambos os casos, dói. Mas isso já é outra crônica.

(TAVOLA, Arthur. In: TAVOLA, Arthur da. Cada um no meu lugar. Rio de Janeiro: PLG Comunicações, 1980)

16.8.11

"É que Narciso acha feio o que não é espelho..."

Quando Caetano Veloso gravou o álbum "Muito", em 1978, ele recebeu duras críticas sobretudo pelo repertório. O álbum vendeu cerca de trinta mil cópias, muito pouco comparado ao que o músico costumava vender. O álbum contava com uma homenagem ao Pelé (na época, ministro dos esportes), além de uma versão para "Eu Sei Que Vou Te Amar", de Tom e Vinícius.

Apesar do baixo sucesso comercial, uma música desse álbum ficou eternizada na carreira de Caetano Veloso e nas aulas de Comunicação e Cultura: "Sampa"!

As impressões de um músico baiano sobre a grande cidade de São Paulo se refletem na letra que, além de citar a geografia da cidade, mostra a cultura local vista por alguém de fora.

23.7.11

Reavaliando a Cultura (2011.1)

Neste semestre, recolhemos as impressões iniciais dos alunos sobre Cultura, expostas em um post anterior (http://culturamauff.blogspot.com/2011/06/senso-comum-sobre-cultura-20111.html); ao final deste período de reflexões, propomos a eles avaliar novamente o conceito de Cultura e algumas de suas questões importantes. Identidade, Sociedade, Significado, Diversidade e Relatividade desta vez foram os termos mais relacionados à Cultura. Podemos avaliar o processo de aprendizado e ampliação do pensamento dos alunos, observando suas análises:

"A cultura se constrói e se transforma, somos frutos e agentes da cultura."
   Esta afirmativa se explica pois a cultura está em constante transformação de acordo com as mudanças das necessidades humanas em suas respectivas culturas e ou de acordo com o tempo em que se vive. -Bruno, Lucas, Tatiana, Thaís.

"O trabalho do sociólogo"
   Quesito muito importante no estudo sobre cultura, pois é o sociólogo que vai analisar culturas diversas escolhendo o melhor método para sua análise, procurando ao máximo ser imparcial e enxergar que a sua própria cultura não é exatamente a "certa", porém que é diferente das outras, ignorando a ideia de "superioridade cultural". - Andréa, Caio, Clarissa, Nathália Caetano

"Relativismo Cultural"
   Para estudar uma cultura não se deve compará-la a outra utilizando critérios evolucionistas. Entender que uma cultura é apenas um estágio de outra é assumir uma visão etnocentrista. Fazer juízos de valor não leva ao conhecimento do outro, Não existe uma cultura, existem culturas. - Ana Laura, Bernardo, Newton, Priscila Vaz
   Segundo o texto de Lévi-Strauss, é importante saber que não existe "a" cultura, ou uma mais importante do que outra. É preciso ter cuidado para não estabelecer juízos de valor, por exemplo, julgar como atos de determinada cultura sejam certos ou errados, sempre respeitando o diferente e o desconhecido. Propõe buscar entender a cultura do outro nos seus próprios termos. - Clara, Louise Carvalho, Vinícius, Valderson.

"Tudo passa pela cultura"
   Ou seja, não existem povos aculturados. Todas as manifestações sociais estão de algum modo relacionadas à cultura. Engloba modos de vida e produções de sentido de uma sociedade. - Ana Laura, Bernardo, Newton, Priscila Vaz.


"A cultura é ordinária (comum)"
   Um dos aspectos fundamentais da cultura é seu caráter ordinário, significa que é uma experiência de cotidiana de todos, produto e produção de um modo de vida. Aspecto elaborado por Raymond Williams, vê cultura como "modos de vida e de luta". - Clara, Louise Carvalho, Vinícius, Valderson.
   A cultura não se refere somente às grandes estruturas, as grandes questões. A cultura está presente nos diversos aspectos da vida cotidiana, desde comprar uma camisa e escovar os dentes de manhã, até uma peça de teatro, escrever um livro, etc. A cultura deve ser analisada também nas questões corriqueiras.  A cultura é "ordinária"; nem tudo é cultura, mas tudo passa pela cultura. - Laís, André, Jacqueline, Priscila.


   Não há uma definição correta para o que seja cultura. Baseado nisso, para se fazer uma análise cultural, alguns teóricos já chegaram a afirmar que isso é possível apenas pelo meio de livros e outros tipos de informações que não levam o estudioso ao local da cultura. Porém, Geertz, um antropólogo contemporâneo, é totalmente crítico a esse tipo de estudo. Pois ele pode levar a uma subjetividade exagerada a uma visão errônea de uma certa característica daquela cultura. O mesmo afirma que para tal feito é preciso ir até o local e observar, conviver, viver e questionar ao participante daquela cultura o que ele entende dessas características.
   O antropólogo ao estudar a cultura de um povo, ele deve aprender tudo sobre o modo de vida dessas pessoas, indo a campo e convivendo, e sempre tentando olhar sob o ponto de vista do povo que está sendo estudado, e depois apresentar uma análise antropológica para que outros venham a conhecer, pois esses estudos servirão para alargar o universo do discurso humano. - Gabriel Corrêa, Louise Romano, Miguel Marcello.

8.6.11

"Quem tem Cultura?"

Grupo: Rita Silveira, Vinícius Kuster, Gabriela Thomazini, Lucas Cunha, Valderson Rodrigues, Clara Sacco

Quem tem Cultura?


Essa pesquisa de campo foi feita com o objetivo de se chegar a um senso comum acerca de quem possui cultura ou não. Foram entrevistadas pessoas de todas as classes, faixas, sexos e, inclusive, de diferentes nacionalidades.

De forma resumida, chegou-se a uma conclusão de que são fornecidos quatro tipos de respostas (os que não sabem responder, os que ligam cultura ao conhecimento, as artes e os que defendem que todos possuem cultura). Algumas com um viés etnocêntrico, outras corretíssimas do ponto de vista antropológico e, por fim, algumas sem nenhum embasamento teórico. Foi evidente a influência do nível de escolaridade nos tipos de resposta. Aqueles com uma melhor formação, no geral, souberam articular uma resposta coesa.

No entanto, como já ficou claro no decorrer desse semestre, a definição de cultura ou de algo que a envolva é de difícil e realização. E, portanto, não se pode julgar uma resposta como certa ou como errada. Como diria Lévi-Strauss, a cultura é inerente a todos e, assim, não nos cabe determinar um tipo de resposta esperado. 

“Qual o valor que a Cultura tem para você?”

Grupo: Gabriel Corrêa, Hélia Oliveira, Letícia Barbosa, Louise Carvalho, Rômulo Natan, Tatyane Larrubia


“Qual o valor que a cultura tem para você?”

De acordo com a pergunta proposta, foram entrevistados treze crianças, quarenta e quarto adolescentes, doze adultos e sete idosos, totalizando setenta e seis pessoas. O grupo buscou obter respostas de brasileiros de diversas partes do país, como Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo, Espírito Santo, Paraná e Manaus, e ainda alguns estrangeiros entrevistados de Cuba, Estados Unidos e Portugal. Separamos os padrões de resposta em seis grupos:
- Não souberam responder a pergunta;
- Acharam importante, mas não souberam explicar o motivo;
- Não acharam importante (apenas um justificou);
- Associaram com entretenimento;
- Associaram com conhecimento;
- Associaram com a formação de uma nação/indivíduo.
Não vimos grandes variações nas respostas das pessoas estrangeiras ou entre as de países diferentes, todas entraram em algum padrão de resposta. A maioria das crianças associou ao entretenimento e a formação de uma nação/indivíduo, todas as outras não conseguiram responder ou não desenvolveram o pensamento. Mais da metade dos adolescentes associou com essa ideia de formação, pouquíssimos ao entretenimento e o conhecimento erudito. Nessa faixa etária houve um diferencial das outras: alguns simplesmente responderam que a cultura não possui valor nenhum, no entanto apenas um justificou.
Entre os adultos, exatamente a metade associou com a formação de nação/indivíduo, seguido pelo conhecimento e poucos associaram ao entretenimento. Estes foram os que mais desenvolveram as respostas e menos fugiram do tema. A respeito dos idosos, dois acharam a cultura importante, mas não souberam responder o motivo e outros dois associaram ao conhecimento. Três deles relacionaram com a formação de um povo e/ou de um indivíduo. Apenas dois possuíam ensino médio completo, dando-nos as respostas mais completas. Os outros foram vagos e fugiram um pouco do tema.
Achamos que nossa pergunta foi difícil para muitos que, apesar de a terem entendido, não conseguiam desenvolver a resposta com nada mais do que “legal, faz bem para as pessoas” ou “cultura, indispensável para uma nação”. Recebemos respostas definindo a cultura, sem nos dizer qual o valor dela para a tal pessoa. embora vago. Também ouvimos boas respostas, pessoas empolgadas que tentavam explicar-se da melhor forma possível, mostrando seu ponto de vista. As que tinham interesse pelo assunto respondiam começando uma boa conversa.
Mais da metade, quarenta e duas pessoas, associou com a formação de uma nação/indivíduo. Obtivemos respostas diretas e explicativas, como também vimos que muitos queriam associar com essa ideia sem saber como desenvolver. As outras pessoas foram divididas quase que igualmente nos outros assuntos, com poucas variações. Conseguimos ter uma ideia a respeito do senso comum sobre o valor da cultura, obtendo o resultado de como a maioria pensa. 

"Três palavras sobre Cultura"

Grupo: Ana Laura Iovino, Beatriz Medeiros, Bernardo Lopes, Louise Romano, Miguel, Marcello, Newton Marins

"Quais são as três palavras que vêm a sua cabeça quando você pensa em cultura?"


Com base na questão proposta: “Quais são as três palavras que vêm a sua cabeça quando você pensa em cultura?”, o grupo fez uma pesquisa de campo e conseguiu entrevistar 52 pessoas. Subdividindo este grupo, temos no total: 14 crianças, 16 jovens, 13 adultos e 9 idosos. Visando facilitar a estatística, decidimos associar as resposta em campos temáticos, como exemplo: Artes, Religião, Localidades, entre outros.

O resultado geral obtido pela pesquisa foi: 45% dos votos foram associados à Arte, 15% à Educação e 8,2% a Costumes, 5% a Comida, 24% a Outros. Percebemos uma predominância do campo artístico vinculado ao pensamento de cultura, no senso comum.

Algumas particularidades notadas pelo grupo foram que associações como “Identidade”, “Contemporaneidade”, “Manifestação” e “Ação” estão mais presentes nas faixas etária de Jovens e Adultos. Já no campo dos idosos percebemos uma associação da Cultura com o rural. Enquanto isso, na faixa das crianças observamos uma associação da cultura com localidades e valores religiosos, sendo o único grupo a citar o mesmo.

"Qual a sua Cultura?"

Grupo: Priscila Vaz, Clarissa Cavalcante, Rávellyn Borges, Laís Yane, Caio Paz, Andréa

Qual a Sua Cultura?

Apesar de ter sido um trabalho e ter valido nota, percebemos que seria uma atividade que teriamos curiosidade de fazer de novo independente da matéria ou das notas. Nos abre leques de possibilidades e respostas que não encontravamos antes e nos ajuda a entender a abordagem das pessoas em relação a um tema de tamanha importância. A partir dessa diversão/entrevista/trabalho pudemos concluir que as grandes diferenças não estavam nas classes sociais e/ou profissões, mas sim na faixa etária e/ou localização no mundo. Nas nossas entrevistas com brasileiros encontramos em todos os grupos, em diferentes frequências, relações de: cultura com arte, cultura com conhecimento e cultura com estudo. Ou seja, uma valorização da cultura acumulativa, porém conceituar um “senso comum” seria muita pretensão de nossa parte tendo em vista a heterogeneidade e valor individual em cada resposta.

Outro ponto  importante da pesquisa foi descobrir como cada faixa etária tinha contato com discussões sobre a Cultura e sua importância, a partir disso, concluimos que o “senso-comum”, o que é passado como conceito em diversas ocasiões é que cultura se adquire, cultura se acumula, o que nos levou a uma reflexão, pois, tendo o conceito de que “cultura se adquire” nos subentende uma possibilidade de vivermos fora da cultura, ou sem cultura, algo, de fato, impossível.

OBS: Com relação aos estrangeiros, a ideia partiu de uma curiosidade em saber a forma de pensamento “fora da caixinha” que chamamos de Brasil, o que nos trouxe uma riqueza enorme e uma quantidade de diferenças considerável para entendermos a cultura e suas “formas”, suas interpretações e seus conceitos.

"O que você entende por Cultura?"

Grupo: André Libanio, Carolina Goulart, Gabriela Farias, Jacqueline Ester, Nathalia Caetano, Priscila Maria Costa



“O que você entende por cultura?”

Tal questionamento quando provocado gera uma série de dúvidas e receios. Como definir em poucas palavras algo tão vasto? Conclusões fechadas nunca serão aceitas para definir o conceito, logo não poderíamos obter, de nossos entrevistados, respostas mecânicas, mas sim, idéias sobre o entendimento individual, mas que se forma no pensamento coletivo da sociedade em que se vive.

O pensamento etnocêntrico torna-se visível quando abordamos o assunto, e é natural, pois é mais seguro falar sobre o que e quem esta a nossa volta, do que fazer suposições sobre a cultura do outro, sendo esse outro, na maioria das falas, o diferente. Porém podemos observar que o entendimento de cultura esta ligada a idéia de lugar, nação, sociedade, povo e povos, o que nos remete a uma idéia que vai além do local.

Preocupante são as vozes que não se reconhecem como parte de uma cultura ou detentora de saber e que enxergam no outro um modelo cultural idealizado, como explicitado na entrevista com a estudante Mirela, que nos falou: “Aquelas pessoas muito chiques e que aparecem nas revistas e na televisão devem ter uma cultura muito boa, mas eu não tenho não”. Tal discurso é impregnado de uma falsa premissa, que coloca como possuidor de cultura aquele que possui bens e status social.

Comportamentos, hábitos, conhecimento erudito, artes, transmissão de saberes, leitura, musica, cinema, crenças, entre outras, foram algumas das respostas que obtivemos e que representam em pouco da opinião dos 30 entrevistados na pesquisa de campo. Podemos agora responder o que nos entendemos por cultura? O principal não é encontrar uma definição para o nosso entendimento, mas perceber o quanto a cultura é heterogênea e que reconhecer no outro as diferenças nos faz perceber o quanto podemos ser culturalmente “estranhos” também.

Senso Comum sobre Cultura (2011.1) - Respostas dos Alunos

Como é de tradição na disciplina de Comunicação e Cultura, nossos alunos realizaram uma pesquisa de campo para analisar o senso comum sobre Cultura. Este semestre tivemos seis grupos, cada um deles encarregado de uma pergunta diferente, abrangendo todas as faixas etárias.
Antes de divulgar os resultados destes trabalhos, vejamos o que os próprios alunos responderam quando foram perguntados sobre três palavras que lhe remetessem a cultura, em seu primeiro contato com a disciplina, que foi para muitos a primeira reflexão sobre o assunto.
Os resultados se dividiram nas seguintes categorias básicas, junto do número de vezes em que foi mencionada:


1) Hábitos/Costumes/Tradições - 22 (19,8%)
2) Arte (Música, dança, cinema...) - 16 (14,4%)
3) Identidade - 13 (11,7%)
4) Alteridade/Diferença - 10 (9%)
5) Processos - 9 (8,1%)
6) Sociedade - 8 (7,2%)
7) Conhecimento/Educação - 6 (5,4%)
8) Outros: Entretenimento, mensagem, manisfesto, poder, idioma, internet.


Veremos a seguir o quanto estas concepções se aproximam do senso comum que foi visto nas etnografias realizadas pelos grupos, assim como os resultados das reflexões feitas em sala, para suas análises.

6.6.11

Análises do filme "Paradise Now" (2011.1)

      Eis algumas análises sobre o filme Paradise Now, feitas pelos alunos da turma de Comunicação e Cultura do primeiro semestre de 2011:

 Letícia Tereza Barbosa da Silva
À primeira vista, um filme sobre a história de dois amigos que decidem cometer um atentado suicida em Tel Aviv poderia soar um pouco pertubador. E certamente o é. No entanto, “Paradise Now” vai muito além de um olhar simplista sobre a questão dos homens-bomba: ele traz para o espectador aspectos que muitas vezes ficam perdidos em uma perspectiva preconceituosa e até mesmo etnocêntrica. Ao apresentar, através detalhes muito sutis, o cotidiano de um povo oprimido, o contato e o choque entre diferentes realidades e culturas, a fé como força motriz de ações que desafiam a razão humana, o papel da mulher na estrutura social islâmica e os hábitos e costumes de um povo, o filme mostra que o embate entre palestinos e israelenses está inserido em um panorama complexo e multifacetado, no qual muitas vezes as vítimas são também os algozes.

Priscila Mana Vaz
O filme Paradise Now traz uma visão ligeiramente imparcial sobre a trajetória de vida de um homem bomba, seus conflitos e anseios. Há, nesse sentido, uma excelente oportunidade de se tentar estabelecer diálogos entre a cultura oriental (palestina) e a cultura na qual estamos inseridos. Oportunidade essa que legitima, ao meu ver, esse ato de suicídio "voluntário" cometido em algumas culturas. De maneira alguma o filme nos leva a acreditar que essa seja a maneira de resolver divergências culturais, contudo deixa para nós uma visão diferente da que é veiculada em noticiários. O filme é sem dúvida um excelente exemplo de que, apesar de haver algumas passagens onde fica clara a ideia do diretor contrária a atitude do suicídio, há com se ter um olhar de diálogo entre culturas, ao invés do lugar de censura de que todos estamos acostumados a observar as diferenças culturais.

Bruno Ronsini
Um filme inovador, pois trata de um assunto ja banalizado pela sociedade (o conflito entre judeus e muçulmanos), mas de uma maneira nunca antes vista. Através do ponto de vista dos homens bomba, os ditos mártires, mas que no final, não passam de pessoas comuns influenciadas por um ambiente de caos e a falta de perspectivas de uma vida melhor. A produção não toma partido. Retrata os suicidas com humanidade, mas introduz personagem que os fazem refletir, e também ao tele espectador, que após conhecer as personagens acha difícil demoniza-los por seus atos, assim como os próprios personagens encontram dificuldades em odiar o "opressor" quando os vêem de perto.



Laís Lima Yane
O filme aborda o impacto das diferenças culturais e a forma na qual lidamos com a mesma, havendo uma discussão política em torno de Israel, na qual não se passa apenas pela cultura pois há também questões políticas, religiosas e econômicas envolvidas, e também que algumas culturas possuem uma hegemonia maior culturalmente. É demonstrado que o homem-bomba também possui uma família, um coração e é um ser-humano como outro qualquer e ao mesmo tempo culpam Israel por serem como são e também por seus destinos. Fazendo relação com a visão de Levi-Strauss, que nesse contato com os outros que você pode relacionar sua cultura com as dos outros e dar à ela vida nova. Percebemos também a visão pacifista da personagem Suha, que representa a visão do diretor. Há como fazermos uma relação à ditadura, quando o personagem Said some, e os outros preocupam-se com o fato, ao pensar que entregará todos os envolvidos através de uma tortura sofrida, então eles precisariam fugir ou encontrá-lo o mais rápido possível. Podemos identificar as diferenças culturais quando surge a idéia de que a mulher ainda se encontra muito submissa e a religião é usada politicamente para convencê-los. Fazemos relação do título que seria o modificar a realidade que está aqui agora, o paraíso real com a frase dita pelo personagem: “Eu prefiro ter um paraíso na cabeça, do que viver nesse inferno.” E o final do filme explodindo em sua cabeça e não na cena ilustra todo um contexto. Concluímos então que é preciso não só respeitar a diferença mas entender como se dá o processo de uma outra cultura.

Louise Carvalho
Muitas vezes ouvimos na mídia notícias relacionadas a homens-bomba, mas poucas vezes paramos para pensar que possuem família e amigos como qualquer outra pessoa. Com o filme “Paradise Now”, o diretor Hany Abu-Assad tratou desse tema polêmico de uma forma que o público conseguiu ver diversos pontos de vista a respeito dos atos terroristas, ao mesmo tempo deixando de ser uma obra tendenciosa. Questões como: os motivos pelos quais homens concordam nessas ações; a reação da família e amigos quando recebem a notícia e a respeito da opinião pessoal dos próprios homens-bomba são abordados no filme, mostrando o lado humano e emotivo através dos personagens Said e Khaled. É uma obra que causará impacto e reflexão mesmo nas pessoas que nada sabem a respeito do assunto e, principalmente, naquelas com os preconceitos já formados.

André Vieira Libânio
Paradise Now vem apresentar o conflito Judeus x Palestino sobre uma nova ótica. Sem a vitimização característica das discussões sobre o assunto, o filme apresenta o outro lado dos homens-bomba palestinos vistos, quase sempre , como vilões da história. O filme permite desfazer a visão de “monstros” que se tem dos homens-bomba e pensar que tais ações “terroristas” são motivadas não somente por fanatismo religioso, mas por questões culturais, frutos de um Estado de violência, de guerra constante.
Durante o filme a questão da violência que é condenada pela personagem Suha e leva o telespectador a pensar se a violência é realmente a melhor maneira de se resolver o problema. Se terrorismo é a melhor maneira de se lutar contra o Estado de violência vigente. Os palestinos lutam por se sentirem oprimidos e subjugados, como diz Khaled: “só escolhemos a amargura quando alternativa é ainda mais amarga”. Enfim, o filme se destaca quando foge do estigma religioso a tratar desse conflito que já se arrasta por décadas.



Priscila Maria Costa
Os conflitos no mundo árabe acontecidos no campo político, econômico e cultural geralmente são representados pela arte como relato de uma sociedade que possui em seu seio a violência como um dos principais elementos para a transformação da realidade. No entanto, o filme Paradise now nos trás uma abordagem que está para além de um simples relato sobre a violência entre Israel e palestinos; nos trás a reflexão sobre as possibilidades de pensar através dos homens bombas que esperam resolver a luta pela disputa de territórios dando cabo de suas vidas, outros caminhos possíveis na guerra, sem precisar para isso, exercer a violência. O enredo do drama vivido pelos personagens Suha, Khaled e Said expressa as sutilizas de um movimento suicida em busca da conquista da liberdade e do paraíso num conflito entre negar e afirmar a própria existência neste mundo. Khaled e Said como protagonistas na representação dos conflitos árabe-israelense se colocam como heróis explodindo o próprio corpo a fim de fazer o mesmo com o povo inimigo. Argumentam que essa prática é a mais legítima e a única capaz de levar ao paraíso, já que consideram este mundo apenas como um campo de guerra e violência para se atingir um propósito que estar sempre por vir. A narrativa se intensifica quando a personagem Suha entre Khaled e Said questiona sobre o posicionamento do homem bomba na guerra, critica com força a prática suicida destes, e também por envolverem a morte de outras pessoas. Suha em seu argumento, propõe a busca por outras alternativas para o conflito entre os dois Estados. O que esta personagem afirma, é a necessidade de priorizar a vida, de afirmar o mundo, a potencialidade que o ser humano possui aqui e agora, exercendo uma força que estar para além da oposição vida e morte, bem e mal. Ao conseguir sensibilizar Khaled, o filme, principalmente através da personagem Suha, exprime que o paraíso se faz a todo instante, no cotidiano, no discurso, ao existir neste mundo. Exprime a importância de não depositar esperanças, desejos de felicidade e gozo em um mundo que não é este, mais potencializar a nossa capacidade criadora para viver o paraíso que está a se construir agora.

Daniel Hércules
O filme de Abu-Assad trata dos últimos momentos de vida de dois amigos de infância, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), após receberem de súbito uma notícia que aguardavam há anos: foram escolhidos, seriam mártires. Ao contar o cotidiano de um “homem-bomba” antes de o ser de fato, Abu-Assad humaniza o terrorista. No começo do filme, Said e Khaled são retratados como jovens despidos do estereótipo religioso. Logo na primeira cena com os protagonistas, Said é questionado por um cliente sobre a qualidade de seu trabalho, alegando que o pára-choque de seu carro encontra-se torto. Said e Khaled tentam resolver dialogando, mostrando que o que está inclinado na verdade é o chão, e não o pára-choque, porém o cliente mostra-se irredutível. Então, revoltado com a injustiça sofrida, Khaled, usando uma marreta, destrói o pára-choque: “- Pronto, agora está realmente torto”. O diretor Abu-Assad deixa claro algo que será explorado em diversos momentos do filme, e que é seu tema principal: a dificuldade em se estabelecer um diálogo, com ambas as partes mostrando-se irredutíveis, negando-se a ceder o mínimo para se chegar a um acordo. Revela também a insistência do uso da violência para resolver impasses, e como essa postura só piora o conflito. Khaled perde o emprego. Paradise Now retrata o conflito entre Israel e a Palestina, através da ótica da “resistência” palestina, por aqui conhecidos como “terroristas”. Sem se ater ao fundamentalismo religioso como única motivação para tal, retrata o “homem-bomba” em sua essência humana, ideais, conflitos: humaniza o desumano. Expõe diversos fatores, comumente ignorados pela mídia, que levam pessoas a cometerem atos extremistas, não justificando por esses fatores o próprio ato em si. Revela o quanto tais atos extremistas contribuem para o prolongamento do conflito e expõe a convicção desses homens de que essa é a única forma de lutar e fazer o mundo enxergar a sua causa.

Gabriel Corrêa e Tatyane Larrubia
"Paradise now" é um filme que aborda a questão do Homem Bomba. Mas apesar de esse ser um assunto frequente na mídia, o filme difere-se por ter um ponto de vista neutro. E essa neutralidade se dá principalmente por ter um roteiro não só do ponto de vista ocidentalista - no filme retratado pela personagem Suha - em que o homem bomba geralmente é visto como um individuo suicida, mas também mostra o ponto de vista do próprio homem bomba - retratado por Said e Khaled - . Não induzindo, então, o telespectador a pensar no homem bomba como um ser automático, mas sim como de fato um ser humano, com pensamentos, dúvidas e sentimentos. Depois de assisti-lo, é impossível não questionar os motivos que levam alguém a explodir-se por uma causa que acredita. O filme leva o espectador a refletir sobre a questão da pluratividade cultural e tenta esclarecer para quem o assiste sobre o problema do etnocentrismo. Nenhuma cultura é melhor ou pior que a outra. Apenas pensam de formas diferentes e se isso fosse então compreendido talvez não houvesse tantas guerras e conflitos por questões culturais.



Bernardo da Silva Lopes
O filme “Paradise now” evidencia o conflito entre Palestinos e Israelenses, mas, ao contrário da maioria dos filmes sobre esse tema, faz uma abordagem a partir da vida dos homens bomba. Sendo assim, quebra o preconceito reforçado pela mídia “ocidental” e comum na maior parte do mundo: os homens bomba são sempre os vilões. Pois demonstra que esse suicida, antes de qualquer coisa, é uma pessoa normal, possui família, amigos e sentimentos – amor e medo –, porém opta deixar isso tudo pra trás por acreditar em uma ideologia que prega o assassinato como parte da solução e a existência do paraíso após uma morte honrada. Esse pensamento facilmente persuade os homens palestinos pela falta de conhecimento desses; porque é legitimado por conceituados e respeitados líderes, apesar desses parecerem não acreditar no que dizem (Jamal); além disso, a maioria do povo palestino vive em péssimas condições, o que torna a opção de morrer como herói e honrar sua família mais atraente (Khaled e Said). Entretanto, o filme demonstra que embora essa idéia seja bastante difundida, não são todos que corroboram com ela, existem os que a questionam por acreditar que a justiça não pode ser verdadeira se obtida pelos mesmos meios da opressão, nesse caso se torna vingança (Suha). Com tudo isso, o filme caracteriza sua imparcialidade e apresenta a questão não de forma maniqueísta, mas de forma humana.

Rávellyn Roya Guimarães Borges
O filme retrata a realidade vivida pelos palestinos em terreno de ocupação israelense, a pressão sofrida por eles e a esperança depositada na crença de recompensa após a doação de sua própria vida em atentados suicidas com a intenção de demonstrar resistência às tentativas de ocupação. Tal prática tem sua iniciação na História durante a 2ª Guerra Mundial, em 1944, uma tentativa desesperada na qual o Japão lança contra a Marinha Americana pilotos kamikases, acendendo nesses jovens o desejo de morrer em nome da pátria através de um lema Banzai: "Antes a morte, que a rendição.” No contexto transmitido no filme, a história não é muito diferente: "Se não podemos lutar como iguais, morreremos como iguais". Embora os homens-bomba apresentem-se de modo cotidiano a zona de conflito no Oriente Médio, o filme foca o comportamento humano no que tange suas inseguranças, temores e anseios diante deste choque cultural pré-existente. Said e Khaled não são envolvidos em assuntos políticos, nem radicais religiosos, mas quando inquiridos comportam-se acertivamente em relação a tornarem-se adeptos e solidários a um ataque suicida em conjunto. Said nasceu em um campo de refugiados e aos dez anos de idade presenciou a execução do pai por ter se transformado em um colaborador do exército israelense, portanto, morrer em nome da pátria pode significar a remissão e purificação da honra de sua família. Após retroceder em certo momento na decisão de dar fim a sua vida, ocorre um monólogo que diz muito a respeito do que habita a mente de alguém que esteja disposto a perder a vida. Segundo Said, voltar para casa é o mesmo que se manter preso, pois é melhor morrer a viver sem dignidade, ou pior, viver sendo lembrado de suas fraquezas. "Israel convenceu o mundo e a eles mesmos de serem vítimas das circunstâncias, embora sejam opressores e ocupantes. Não me resta outra saída a não ser assumir meu posto de vítima, mesmo que isso me leve a transformar-me em um assassino". Neste ponto, Said mostra-se realmente decidido em relação a seu conflito interno e a postura de Suha é o contraponto que leva o expectador a refletir e definir sua posição em relação ao dado assunto. Suha impõe antes de tudo a posição da mulher contemporânea num contexto em que as mesmas não possuem voz nem vez e a partir desta postura traduz o que o mundo pensa ou deveria pensar em relação a essa tentativa violenta que transmite um pedido desesperado por justiça. "A partir do momento em que você mata, não há mais diferença entre vítima e opressor". Se tais tentativas terroristas fossem eficazes, as guerras solucionariam tudo, inclusive a fome, corrupção e desigualdade que tanto afligem comunidades humanas, não só na Palestina, como em todo o mundo



Hélia Oliveira
Essa semana revi o filme Paradise Now e ao mesmo tempo me veio uma música na cabeça: Desterro – F.U.R.T.O é muito fácil se obter um julgamento em relação a terroristas palestinos, homens bombas que parecem apenas ‘’ querer causar terror, matar pessoas inocentes e se auto explodirem’’, porém, ao ver o filme, fica bem mais claro que essa não é a questão. Etnocentrismo! Oprimir, delimitar, proibir, trancafiar e dizer: VOCÊ É INFERIOR, VOCÊ MERECE ISSO! POR QUÊ? PORQUE QUEREMOS, PORQUE SOMOS MAIS RICOS, OU SEM UM MOTIVO APARENTE. É o senso comum, como Marx dizia: a “ideologia’’ vem do dominante e não do dominado, eles têm um senso comum de pensamento, de classe. Israel apreende palestinos, feito animais, são postos atrás de grades e proibidos de ultrapassar pequenas fronteiras. Ser humano não foi feito pra viver assim, ainda mais sem ter cometido crime. Engaiolar passarinhos acaba por fazer morrer o canto dos mesmos, cortam-lhes não só as asas, cortam o direito de viver como passarinhos. Problemas ideológicos/econômicos fazem seres humanos aprisionarem seres humanos... Os oprimidos não têm outra escolha, não podem esperar que uma organização humana os ampare, pois está ainda em processo lento, não muito se pode fazer. É preciso chamar a atenção do mundo, das nações. E com o tempo que não combinava com o progresso, vinha como doença de dentro para fora dos hábitos, quando ele amou tão forte como uma bola de fogo, ela, o chão e a alegria de poder fazer mais cova em sua história” E essa amor como uma bola de fogo é talvez o que motive os Palestinos a cruzarem fronteiras e lutarem (da forma qual eles acham justa/digna/necessitada/precisa/um pedido de socorro, ou de paz) pelo amor aos seus pais, ao seu país, ao orgulho de ser Palestino, lutar pela liberdade. “Erra quem sonha com a paz, mas sem a guerra, se existe o céu, pois existe a terra, assim também é nessa vida real, não há o bem sem mal, nem amor sem que uma hora o ódio venha” É fazendo guerra que eles acham que acabaram com a guerra. Por amor, morre-se de amores. Por liberdade morre-se lutando, assim como por dignidade, orgulho, medo, coragem. “Quem não tem medo de morrer, domina a vida’’ Matar inocentes não é justo (essa é a visão do mundo para com o conflito) Matar, oprimir, menosprezar Palestinos, não é justo é preciso fazer algo. É então que deixo a pergunta no ar: Que algo é esse a ser feito? Não tomo como verdade, nem mesmo defendo os atos terroristas, mas é terror toda forma de violência, é terror toda discriminação, é terror não ter direitos, é terror não ser livre. Said passa todo o filme com o mesmo semblante, ele não sorri, ele não tem motivos para sorrir... Sua motivação é honrar a família, limpar a memória do pai. “Luta, pelo seu ideal Força, vai adiante até o final Voa, pra sua liberdade” – (Olha- Chicas) Pode-se dizer que Palestinos e Israelences tem a mesma cor, a cor da violência? Talvez! “O mundo migra e dá de cara com fronteiras As chaves são as mesmas... Um beijo na pátria amada Ao lado de uma bandeira queimada... Braço, é braço, braço de terra negada Braços pulando os muros do mundo Do futuro por emprego, braços de refugiados Apesar de tudo, por um instante Pousam num estado de aleluia...Desterro.”