ARTIGO - RASHEED ABOUALSAMH
O anúncio da nomeação de 30 mulheres sauditas pelo rei Abdullah, no dia 11 de janeiro, para serem membros do conselho de Shoura, uma espécie de parlamento que propõe legislação e políticas, deixou muitos sauditas felizes com esse avanço para as mulheres sauditas. Até então, o conselho de Shoura tinha sido um bastião exclusivamente masculino de 150 membros.
O decreto real nomeando as mulheres também especificou que 20% dos lugares no Shoura daqui em diante tinham que ser ocupados por mulheres, fazendo a Arábia Saudita pular no ranking mundial de países com mulheres no Parlamento da posição 184 para o 80º lugar. Ironicamente, isso botou o reino saudita à frente de países como os EUA, Irlanda, Rússia, Índia e até do Brasil, em termos proporcionais.
Todas as mulheres nomeadas, exceto por três delas, têm doutorados, e são líderes nas áreas em que atuam. Thuraya Obaid, uma das nomeadas, foi uma diretora no programa de desenvolvimento internacional das Nações Unidas em 2000, enquanto Hayat Sindi é uma das melhores atuantes no campo de biotecnologia.
"Eu fiquei emocionada e orgulhosa," me disse a jornalista saudita Abeer Mishkhas. "Quando vi a lista de nomes fiquei feliz de ver um amplo espectro de mulheres escolhidas. Eu espero que elas usem sua experiência para avançar as questões das mulheres, como os direitos das divorciadas, o direito de dirigir e leis contra o assedio sexual."
O rei Abdullah tem pressionado por uma participação maior das mulheres na vida econômica e política do país, o que não tem agradado em nada aos ultraconservadores, que tem se queixado a cada brecha aberta para as mulheres. O rei tinha anunciado a sua intenção de nomear mulheres para o Shoura em um discurso no ano passado. Em 2011 ele anunciou que mulheres iam poder se candidatar e votar em eleições municipais em 2015. E no ano passado, o governo proibiu homens de trabalhar em lojas de lingerie feminina, abrindo mais espaço para mulheres trabalharem no varejo.
"Nós tomamos essa decisão porque nos recusamos a marginalizar mulheres na sociedade saudita," disse Abdullah em discurso. "Nós queremos vê-las em papéis que seguem a Sharia islâmica, e isso foi feito depois de consultar com muitos dos nossos estudiosos que apoiaram isso", explicou, acrescentando: "Mulheres muçulmanas sempre assumiram posições que não podiam ser marginalizadas desde os tempos do profeta Maomé."
Isso não impediu que um grupo de mais de 20 clérigos fossem protestar na frente da corte real em Riad na semana passada, contra a nomeação de mulheres ao Shoura, e com a esperança de ter uma audiência com o chefe de gabinete da corte real, coisa que não aconteceu.
O jornalista saudita Ahmed al-Omran relatou no seu site Riyadh Bureau que esses clérigos disseram que essas nomeações não representavam as pessoas morais e de bons costumes, e que um pequeno subgrupo deles divulgou um comunicado com uma longa lista de queixas contra o governo.
Entre suas acusações contra o governo estavam: o patrocínio de um caos ideológico e frouxidão cultural através de feiras de livros, clubes de literatura, bibliotecas e cafés, bem como a margem crescente de liberdade de expressão na mídia; a abertura de escolas de Direito, com isso enfraquecendo as cortes de Sharia; mudanças na política de educação que permitem a mistura dos sexos em algumas instâncias e o gasto de bilhões de rials para mandar estudantes ao estrangeiro; deixar mulheres participar de esportes, incluindo a decisão de mandar duas atletas sauditas para as Olimpíadas em Londres no ano passado, e a normalização da mistura dos sexos na sociedade através do encorajamento do emprego de mulheres em áreas como o varejo, indústria, restaurantes e escritórios de advocacia.
Como se pode ver pela longa lista de queixas, infelizmente esses clérigos ultraconservadores não querem deixar as mulheres sauditas fazer nada além de ter filhos e cuidar de suas casas. É também irônico o fato de que recorreram a uma manifestação pública, já que a maioria dos clérigos sauditas acha que protestos públicos não devem ser permitidos, porque mostrariam desobediência à soberania do país e levariam à desordem na sociedade.
A verdade é que, como sempre, mudanças na Arábia Saudita vêm do topo e não de baixo. Nos anos 1960 o governo saudita teve muitos problemas com a introdução de uma emissora de televisão, com muitos clérigos protestando contra isso, dizendo que era coisa do Diabo para arruinar o país. Restou ao rei Faisal mostrar para os clérigos que a televisão não era um instrumento diabólico se podia transmitir imagens e sons das orações ao vivo de Meca.
É com esse fundo de desprezo pelo papel da mulher na sociedade que as 30 mais novas parlamentares vão ter que trabalhar para melhorar a vida de mulheres na Arábia Saudita. Elas vão funcionar numa parte separada dos membros masculinos do conselho, com equipes totalmente femininas, podendo falar com seus colegas do sexo oposto somente através de câmeras de vídeo. Mesmo assim, acho que a adição dessas 30 ao conselho vai ajudar em muito para avançar na defesa dos interesses de todas as mulheres sauditas. E isso é bom para o desenvolvimento do país e da sociedade, queiram ou não os clérigos.
Rasheed Aboualsamh é jornalista
Fonte:
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/abertura-para-as-mulheres-sauditas-7388322#ixzz2JOGFuTvN
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29.1.13
21.1.13
| o que é, afinal, estudos culturais?
Definição de Estudos Culturais que o professor Tomaz Tadeu da Silva apresenta nas orelhas do livro que organizou e traduziu, "O que é, afinal, Estudos Culturais?" pela editora autêntica.
“Os Estudos Culturais tomam como seu objeto qualquer artefato que possa ser considerado cultural, sem fazer distinção entre ‘alta’ e ‘baixa’ cultura: das exposições de museu, passando pela literatura e pelo cinema e chegando aos programas de televisão e à publicidade, nada é considerado estranho às preocupações das análises e das críticas dos Estudos Culturais. Diferentemente da crítica tradicional, entretanto, os EC não se concentram na análise estética a não ser para examinar suas conexões com relações de poder. Os EC concebem, pois, a cultura como campo de luta em torno da significação social. A cultura é um campo de produção de significados no qual os diferentes grupos sociais situados em posições diferentes de poder, lutam pela imposição de seus significados à sociedade mais ampla. O que está centralmente envolvido nesse jogo é a definição da identidade cultural e social dos diferentes grupos. Numa definição sintética, poder-se-ia dizer que os EC estão preocupados com questões que se situam na conexão entre cultura, significação, identidade e poder.”
“Os Estudos Culturais tomam como seu objeto qualquer artefato que possa ser considerado cultural, sem fazer distinção entre ‘alta’ e ‘baixa’ cultura: das exposições de museu, passando pela literatura e pelo cinema e chegando aos programas de televisão e à publicidade, nada é considerado estranho às preocupações das análises e das críticas dos Estudos Culturais. Diferentemente da crítica tradicional, entretanto, os EC não se concentram na análise estética a não ser para examinar suas conexões com relações de poder. Os EC concebem, pois, a cultura como campo de luta em torno da significação social. A cultura é um campo de produção de significados no qual os diferentes grupos sociais situados em posições diferentes de poder, lutam pela imposição de seus significados à sociedade mais ampla. O que está centralmente envolvido nesse jogo é a definição da identidade cultural e social dos diferentes grupos. Numa definição sintética, poder-se-ia dizer que os EC estão preocupados com questões que se situam na conexão entre cultura, significação, identidade e poder.”| Raymond Williams
Quando o assunto é Estudos Culturais, é impossível não citar Raymond Williams. Como você já conferiu aqui no Culturama, ele foi um dos fundadores do Centro Contemporâneo de Estudos Culturais, ao lado de Hoggart e Thompson.
Além de acadêmico, Williams foi crítico e novelista galês. Seus trabalhos sempre refletiam seu pensamento marxista, fosse através de escritas sobre política, literatura ou Cultura de Massas.
Ainda na adolescência, Raymond Williams ingressou no "Clube do Livro da Esquerda". Foi nessa fase que ele leu Marx pela primeira vez, "O Manifesto Comunista".
Durante a Segunda Guerra Mundial, Williams afiliou-se ao Partido Comunista Britânico e, durante esse tempo, ficou responsável pelos textos dos panfletos distribuídos pelo Partido.
Williams fez mestrado em Trinity College, em 1946. Em 1958, lançou "Cultura e Sociedade", que se tornou um sucesso imediato, sendo seguido por "A Longa Revolução", de 1961. Ainda em 61, foi convidado para voltar a Cambridge como professor de Dramaturgia. Em 1973, tornou-se professor visitante de Ciências Políticas, em Stanford.
A obra de Raymond Williams vendeu mais de 750 mil cópias, apenas no Reino Unido. Seus trabalhos ainda foram traduzidos e lançados ao redor do mundo, como podemos conferir nas aulas de Comunicação e Cultura e Estudos Culturais.
Além de acadêmico, Williams foi crítico e novelista galês. Seus trabalhos sempre refletiam seu pensamento marxista, fosse através de escritas sobre política, literatura ou Cultura de Massas.
Ainda na adolescência, Raymond Williams ingressou no "Clube do Livro da Esquerda". Foi nessa fase que ele leu Marx pela primeira vez, "O Manifesto Comunista".
Durante a Segunda Guerra Mundial, Williams afiliou-se ao Partido Comunista Britânico e, durante esse tempo, ficou responsável pelos textos dos panfletos distribuídos pelo Partido.
Williams fez mestrado em Trinity College, em 1946. Em 1958, lançou "Cultura e Sociedade", que se tornou um sucesso imediato, sendo seguido por "A Longa Revolução", de 1961. Ainda em 61, foi convidado para voltar a Cambridge como professor de Dramaturgia. Em 1973, tornou-se professor visitante de Ciências Políticas, em Stanford.
A obra de Raymond Williams vendeu mais de 750 mil cópias, apenas no Reino Unido. Seus trabalhos ainda foram traduzidos e lançados ao redor do mundo, como podemos conferir nas aulas de Comunicação e Cultura e Estudos Culturais.
8.1.13
O CAMPO CIENTÍFICO
Aula passada conversamos sobre "verdade científica", a questão da razão e da ciência. Para os interessados em continuar os estudos, há um texto de Pierre Bourdieu muito esclarecedor e que nos ajuda a refletir. Coloco parte dele abaixo, aos interessados ver texto completo aqui. Boa leitura.
"O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas
entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de
uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o
monopólio da autoridade científica
definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder
social; ou, se quisermos, o monopólio da
competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de
agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é
socialmente outorgada a um agente determinado. Dizer que o campo é um lugar de
lutas não é simplesmente romper com a imagem irenista da "comunidade
científica" tal como a hagiografia científica a descreve − e, muitas
vezes, depois dela, a própria sociologia da ciência. Não é simplesmente romper
com a ideia de uma espécie de "reino dos fins" que não conheceria
senão as leis da concorrência pura e perfeita das ideias, infalivelmente
recortada pela força intrínseca da ideia verdadeira. É também recordar que o
próprio funcionamento do campo científico produz e supõe uma forma específica
de interesse (as práticas científicas não aparecendo como
"desinteressadas" senão quando referidas a interesses diferentes,
produzidos e exigidos por outros campos). Falando de interesse científico e de
autoridade (ou de competência) científica, pretendemos afastar, desde logo, as
distinções que habitam, implicitamente, as discussões sobre a ciência. Assim,
tentar dissociar o que, na competência científica, seria pura representação
social, poder simbólico, marcado por todo um "aparelho" (no sentido
de Pascal) de emblemas e de signos, e o que seria pura capacidade técnica, é
cair na armadilha constitutiva de toda competência, razão social que se
legitima apresentando-se como razão puramente técnica (conforme vemos, por
exemplo, nos usos tecnocráticos da noção de competência). Na realidade, o
"augusto aparelho" que envolve aqueles a quem chamávamos de
"capacidades" no século passado e de “competências" hoje − becas
rubras e arminho, sotainas e capelos dos magistrados e doutores em outros
tempos, títulos escolares e distinções científicas dos pesquisadores de hoje −
essa "ostentação tão autêntica", como dizia Pascal, toda essa ficção
social que nada tem de socialmente fictício, modifica a percepção social da
capacidade propriamente técnica. Assim, os julgamentos sobre a capacidade
científica de um estudante ou de um pesquisador estão sempre contaminados, no transcurso de sua carreira, pelo
conhecimento da posição que ele ocupa nas hierarquias instituídas (as Grandes
Escolas, na França, ou as universidades, por exemplo, nos Estados Unidos)."27.12.12
Adam Kuper e as civilizações
Adam Kuper é um antropólogo nascido em 1941, ligado à Escola de Antropologia Social. Em seus trabalhos, costuma analisar a cultura em seus usos e seus significados.
Nascido e criado na África do Sul, ele ingressou na Universidade de Witwatersrand em Johannesburg. Seu doutorado, na Universidade de Cambridge, foi baseado no campo de pesquisa no deserto Kalahari, que hoje é conhecido como Botswana. Depois da graduação, ele retornou à África, fazendo diversos trabalhos de campo em Botswana e Uganda e ensinando por três anos na Universidade Makerere, em Kampala. De 1970 a 1976, lecionou na Universidade College London. De 1976 a 1985, ele foi professor de antropologia africana na Universidade Leiden, na Holanda. De 1985 a 2008, foi professor na Universidade Brunel, onde era chefe do Departamento de Ciências Humanas e, mais tarde, chefe do Departamento de Antropologia.
Recebeu o prêmio de pesquisa "Leverhulme Major Research Grant" por dois anos (2003 e 2005), o qual o permitiu gastar mais de seu tempo com pesquisas.
| pequeno dicionário 'kuperiano'

O livro 'Cultura: a visão dos antropólogos' de Adam Kuper (EDUSC, 2002) será trabalhado esta semana em comunicação e cultura. todos já devem estar com cópia do capítulo 1 na mão: 'cultura e civilização: intelectuais franceses, alemães e ingleses, 1930-1958', porém, no texto kuper utiliza algumas palavras em alemão cuja compreensão do sentido é fundamental para uma boa apreensão e conseqüente reflexão deste conteúdo.
Nosso blog está facilitando pra todo mundo e disponibilizando os principais termos utilizados com sua tradução mais apropriada no nosso português.volk: povo, nação;
geist: espírito, mente;
bildung: educação, instrução, cultura, formação, organização;
wissenschaft: ciência;
kulturwissenschaft: ciência da cultura;
geisteswissenschaften: ciência da mente, do espírito;
fonte: biblioteca uol - dicionário alemão michaelis
| Paradise Now

Em Paradise Now, o diretor e roteirista Hany Abu-Assad passa a mostrar algumas razões que levam pessoas simples e comuns, sem nenhuma espécie de radicalismo político ou religioso e com uma forte ligação familiar, a tomar formas tão drásticas de combate. A partir desta tônica, podemos pensar nos seguintes aspectos: Estariam os homens bombas realmente convictos da necessidade de se explodirem, no intuito de destruir alvos considerados inimigos? Seria a violência a melhor forma de lutar contra um sistema opressor, mesmo sendo ele exageradamente violento, como comprovadamente foi Israel em relação à Palestina? Como convivemos com a diferença? São inúmeras as questões levantadas em virtude desse longo e discutido conflito. Pensemos e analisemos algumas dessas questões levantadas pelo filme.

O Velho Tema do eu e do outro
Nos estudos sobre cultura, é fundamental compreender e relativizar as diferenças entre indivíduos ou grupos. Não apenas para evitar tendências etnocêntricas, mas para reconhecer a forma através da qual os indíviduos constroem sentido socialmente, mesmo com base na diferença. Este processo interpessoal constitui aquilo que conhecemos como alteridade: a percepção de si mesmo e do outro, que é dada a partir da relação do "eu" com outros indivíduos.
Abordando este tema, o aluno da disciplina de Comunicação e Cultura, Bernardo Fajoses, nos recomendou um pequeno texto de Arthur da Távola capaz de exemplificar a forma pela qual estas relações entre o "eu" e o "outro" são construídas.
O VELHO TEMA DO EU E DO OUTROVeja se dá para entender: a gente, para a gente mesmo, é a gente. Raramente consegue ser o outro. A gente, para o outro, não é a gente, é o outro. Deve estar confuso. Tento de novo. Cada um de nós vive uma ambigüidade fundamental: ser a gente e ao mesmo tempo, ser o outro. Pra gente, a gente é a gente. Para o outro, a gente é o outro.
Temos, portanto, dois estados: ser o eu de cada um de nós e ser o outro. Na vida de relação, pois temos que saber ser o ‘eu individual’ e ao mesmo tempo, aceitar funcionar em estado de alteridade (outro vem de ‘alter’), ou seja, de ‘outro’.
O outro, raramente nos considera como a gente (como pessoa singular, peculiar, própria, única, desigual). Em geral, ele nos considera como o ‘outro’. Daí surgem os conflitos. Não apenas o outro em geral não nos considera como ‘a gente’. Também a gente não sabe aceitar, ou raramente aceita, ser tratado como ‘outro’. A gente quer ser tratado como a gente sabe que é, e não como o outro nos considera.
A gente sempre tem esperança que o outro descubra o que a gente é. Mas isso é muito difícil, porque o outro nos vê como ‘outro’ ou como qualquer projeção dele, jamais nos vê como a gente se vê ou quer ser visto ou gostaria de ser visto.
Uma relação de duas pessoas dá-se portanto, em quatro etapas: i) para Joaquim, Maria é o outro; ii) para Joaquim, Joaquim é Joaquim; iii) para Maria, Joaquim é o outro; iv) para Maria, Maria é Maria.
Mas Maria quer que Joaquim não a veja como ‘o outro’ e sim como Maria. E Joaquim não quer ser visto como ‘o outro’, ele quer ser visto como Joaquim. Mas nem Maria o vê como Joaquim (e sim como ‘o outro’), nem Joaquim a vê como Maria (e sim como ‘o outro’ na pessoa dela).
É essa a vontade de que nos vejam como individualidade que somos, o que nos leva a exigir talvez demais daqueles que se relacionam conosco. Eles talvez não estejam preparados (raramente estão) para nos ver como ‘eus’, como unidades próprias, como somos ou como queremos ser.
Exigir dos demais que nos vejam em nossa individualidade é um fato de pouca sabedoria. Raramente eles o conseguem, porque se somos ‘eu’ para nós mesmos, somos outro para eles. Em estado de ‘eudade’ (de eu), somos uma pessoa. Em estado de alteridade, somos outra pessoa.
Conseguir, sem exigir ou cobrar, porém, que o outro não nos veja como ‘o outro’ que somos para ele, mas como o ‘eu’ que somos para a gente, é ato de sabedoria. Significa saber ser nítido, saber colocar-se como pessoa e como individualidade, saber ocupar o próprio espaço sem qualquer invasão do espaço dos demais ou sem qualquer limitação do que eles são e nos agregamos, por inveja ou por admiração (coisas muito parecidas).
Para tal, é mister que saibamos ver o outro não apenas como o ‘outro’, mas como o ‘eu dele’ para ele. Mais claro: significa ver o outro como ele é, na condição de ‘eu’ ou seja, de indivíduo próprio, peculiar, semelhante sim, mas desigual e não na condição de ‘outro’, que é como ele chega até nós.
É no centro dessa relação que está a essência do problema da comunicação e da comunhão (que vem a ser a mesma coisa).
Eu devo ser ‘eu’ para mim e para o outro. O outro deve ser o ‘eu-dele’ para mim. Eu devo aceitar ser ‘o outro’ para o outro. Mas devo desejar e conseguir ser ‘eu’ para ele. Eu, em estado de ‘eu’, devo aceitá-lo como outro. Eu, em estado de ‘outro’, devo aceitá-lo como o eu dele. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘eu’. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘ele’. Ele é ‘eu’ mas também é ele. Por isso somos, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Por isso somos irmãos. Por isso a humanidade é uma só. Por isso a igualdade humana é uma verdade, na diferença individual.
E, para terminar, um outro alcance, paralelo ao principal, mas verdadeiro nas relações humanas: o outro nunca sabe direito o que ele é e representa para a gente. E a vida nos vai ensinando a ser cada vez mais sozinhos, pelo acúmulo de não correspondência daqueles que sempre nos significam algo, mas nunca o souberam ou perceberam na exata medida. Ou então, preocupados em excesso com os próprios problemas nunca atenderam ao potencial de afeto que por eles ou para eles havia em nós e foi desgastando em uso ou dispersão, já que não o souberam receber.
Às vezes esse ‘outro’ é mesmo o outro. Aí é a gente que fica com o próprio gesto de amor solto no ar à espera de aceitação, entendimento e correspondência. Em ambos os casos, dói. Mas isso já é outra crônica.
(TAVOLA, Arthur. In: TAVOLA, Arthur da. Cada um no meu lugar. Rio de Janeiro: PLG Comunicações, 1980)
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